Mãe Julia - Juliana Silva dos Santos
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 15 de out. de 2025

(nascida em 06/06/1945; falecida em 29/04/2025)
Há quatro anos, Mãe Júlia nos recebeu com doçura e firmeza. Falava baixo, mas cada palavra trazia o peso da fé e das experiências de uma vida inteira dedicada ao Candomblé. Nascida e criada na região da Matinha, filha de pais também da região de Itacaré, contava que, quando menina, tinha medo das obrigações religiosas, mas o destino lhe apontou o caminho da fé.
Aos 14 anos, casou-se com um candomblezeiro do Quilombo do Santo Amaro e, depois que ele partiu, foi ela quem assumiu o terreiro, dando continuidade às tradições da comunidade. “Fiquei com o candomblé dele pra não deixar morrer”, disse com serenidade.
Durante décadas, cuidou das obrigações da casa e das festas de santo — Caruru de Santa Bárbara, Iemanjá e tantas outras. Não sabia dizer quantos filhos de santo tinha, “eram muitos”, afirmava rindo, com a lembrança viva de cada rosto.
Sobre as festas de Iemanjá, falava com brilho nos olhos: “Eram três dias de festa, começava na véspera, no dia e no outro dia. Era bom!”
Lembrava que, antigamente, não havia cortejo de barcos. E fazia questão de dizer que foi ela quem colocou o primeiro barco no mar para a oferenda, num tempo em que Itacaré tinha apenas três terreiros: o de Dona Noca, o de Dona Organita e o dela.
De presente, entoou para nós com devoção um cântico de Iemanjá: “Ê Iemanjá, ê Iemanjá / Mamãe Sereia, Rainha do mar / Trouxe presente, bonito colar / Pente de ouro pra pentear / Seu lindo cabelo nas ondas do mar.”
Mãe Júlia ajudou muita gente — no corpo e no espírito. Curava com ervas, com reza e com acolhimento. Era procurada por pessoas de diferentes crenças e todos a respeitavam por sua generosidade e sabedoria.
Casou-se depois com Aloizio Bispo dos Santos, com quem teve sete filhos, dos quais cinco viveram — três meninas e dois meninos. Todos seguiram os caminhos do Candomblé e hoje se organizam para dar continuidade ao terreiro, honrando o legado da mãe.
Orgulhava-se dos dez netos “de sangue” e de “um bocado” de netos de coração, além de quatro bisnetos que, como ela dizia, “vieram pra alegrar a casa”. Mulher de fé, força e doçura, Mãe Júlia partiu em abril de 2025, deixando na memória do Santo Amaro, e de todos em Itacaré, o exemplo de quem transformou o medo em caminho e a devoção em herança.






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