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Iná - Adaíldes Francisca Rocha dos Santos

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Dona Iná, mulher preta de 66 anos. Ela olha serena para a câmera e seus cabelos grisalhos encarapinhados estão puxados e amarrados para trás. Veste uma blusa rosa e um colar de pedrinhas pequenas verdes. Ao fundo, uma parede em tom pastel e alguns vasos de planta.

(nascida em 04/10/1959)


Desde que “tomou jeito de gente”, atende por Iná. Filha de Adaite, também homenageada nesta edição do Projeto, e de Luiz Gonzaga (mas “não o do Baião”, brinca), nasceu no Porto de Trás, em uma casa cheia: era a mais velha de 11 irmãos, criados juntos, agarrados na força do pai e da mãe.


Foi entre o Porto de Trás e o Quilombo do Santo Amaro, terra de seus avós maternos, Seu Porfírio e Dona Ananita, que Iná cresceu. E cresceu sob as regras rígidas do pai, que não permitia que as filhas fossem ao mercado, ao açougue ou à praia. Mulher, na “mente dele”, era pra ficar dentro de casa.


Aos 15 anos, Iná conheceu o mar — fugida, com o namorado — e nunca esqueceu a emoção daquele mergulho clandestino.


Aos 16, casou. Era o único jeito de sair de casa e conquistar um pouco de liberdade.

Foi viver em Ilhéus, onde passou 13 anos. Mas o coração nunca se adaptou. Voltou para Itacaré com os filhos e deixou o marido por lá. Criou sozinha os seis: três meninas, três meninos.


Com as filhas, fez diferente — criou com liberdade e cuidado. “Puxava a corda, mas deixava andar”, diz, com orgulho. Hoje são nove netos e dois bisnetos (um a caminho!). Uma das netas, ela criou desde pequena. Mas todos os netos estão sempre na casa dela.


Marisqueira e roceira, Iná trabalhou a vida inteira para sustentar os filhos. Aprendeu a plantar com o pai: batata, abóbora, aipim, cana, melancia — pra comer e pra vender. E aprendeu a cozinhar na prática: a comida que ela prepara é daquelas que, quem prova, não esquece.


Pescava caranguejo, siri, cabeça de lagosta e camarão. Vendia o catado e fazia disso o sustento da casa.


Estudou até a quarta série. Português, ela amava. Já a matemática... foi o que a tirou da escola. Ainda lê livros, mas gosta de ir logo ao final — curiosa demais pra esperar.


É mulher de axé. Filha de Oxóssi, frequentadora do Terreiro de Nanã, de Mãe Júlia, no Santo Amaro. A família toda tem pé no candomblé.


E se tem seresta, Iná está lá. Samba ela acha lindo, mas não sabe sambar — “agora seresta é comigo!”, afirma com firmeza e riso solto.


Uma mulher de fé, de força. Iná é raiz viva no território quilombola —no axé, na panela cheia, nas histórias que conta.

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