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Dona Santinha - Santilha Maria Conceição

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Dona Santinha, mulher preta idosa, com poucas rugas no rosto. Ela está sorrindo, deixando à mostra parte dos dentes. Usa um lenço branco com estampa verde cobrindo o cabelo e um vestido claro com estampas florais verde e laranja. Esta em frente a uma parede em tom pastel.

(nascida em 07/07/1956)


Dona Santinha é a caçula de doze irmãos. Filha de Romana Joana da Conceição, nascida em Maraú, e de Eduardo Inácio de Jesus, natural de Taboquinhas, veio ao mundo em Maraú, onde passou a infância ao lado da mãe e dos irmãos mais velhos, depois da separação dos pais.


Aos 11 anos, foi morar por dois anos com os avós paternos, Dona Ermira e Seu Manoel, filho de índia, no Quilombo de Serra de Água. Guarda lembranças saudosas desse tempo, quando as festas animavam a comunidade: Bicho Caçador, Bumba Boi, candomblé, tudo acompanhado de muito samba duro.


De volta a Maraú, conheceu Boca de Louça, também homenageado nesta edição do projeto, com quem se casou. “Ele me carregou de casa e pronto, já estávamos juntos.” Tiveram 12 filhos — sete meninas e cinco meninos.


Nos tempos antigos, vinham de Maraú a pé, com as crianças dentro dos panacuns feitos por ele ou montados em animais, para participar das atividades do Terreiro de Nanã, de Mãe Júlia, no Santo Amaro. Assim nasceu o vínculo com o território quilombola de Itacaré. A vida em Maraú era dura, e o convite de Mãe Júlia para viver em suas terras foi decisivo: “Ela deu um pedaço de chão pra gente.


Criaram os filhos com o trabalho na roça, no mangue e com o artesanato em cipó que Boca de Louça ainda faz até hoje. Depois de todos os filhos nascidos, casaram-se no civil e já somam meio século de união.


Santinha e o marido participaram da fundação da primeira associação de moradores do Santo Amaro. Estudou até o 3º ano, o máximo que havia disponível na época, e se orgulha da grande família que construiu: “Tenho neto e bisneto no mundo, são uns 35 netos, boto nessa fatura, e uns cinco ou seis bisnetos.


Mulher do axé, é filha de santo de Mãe Júlia no Terreiro de Nanã. Conta que, desde que chegaram ao Santo Amaro, há cerca de 40 anos, o candomblé e o samba sempre foram a alma da comunidade.


Recorda também as tapagens, mutirões para levantar as casas de taipa. “Juntava uma galera... chegavam de madrugada, cortavam o barro, faziam o barreiro e quando os donos viam, já tava tapado.” Quando terminavam, “pegavam uns galhos de mato e benziam a casa, pediam a Deus pelos donos.” Depois, vinha a festa com galinha, cachaça e muito samba.


Outra tradição era a temperada de parida, celebração após o nascimento dos filhos: “Lá em casa bebia a parida e quem chegava.


Nos tempos de antigamente, só vinham à sede de Itacaré para resolver algo ou ir à feira — “Não tinha motor nas canoas, vinha era remando.” Hoje, ela e Boca de Louça têm uma casa no Porto de Trás, mas Dona Santinha não gosta de se demorar por lá: sente falta da casa do quilombo, do fogão a lenha e dos animais.


Depois de uma temporada longa na cidade por motivo de saúde, já se prepara para voltar “pro mato”, como diz sorrindo. O que mais valoriza no Santo Amaro é o modo de viver, o “giro”, como chamam a pesca, tanto pra comer quanto pra vender. Lembra dos tempos em que havia fartura de sururu, lambreta e guaiamum — “as enchentes acabaram com o marisco no Santo Amaro.


Além da roça e da pesca, Santinha também vende o artesanato do marido, feito de cipó. Pega o ônibus até Ubaitaba carregada de peças, vai vendendo pelo caminho e sempre volta com o dinheiro no bolso: “Eu vendo tudo.” E, ao final do dia, guarda um prazer simples que não dispensa: “Meu vício é a novela, só durmo depois que acaba.


Dona Santinha é parte dessa roda antiga de saberes, onde o candomblé, o samba e o trabalho no mangue seguem fazendo a vida girar no quilombo do Santo Amaro.

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