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Dona Lapinha - Maria Enedina da Conceição

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Dona Lapinha, mulher preta de 62 anos. Ela está sorrindo, tem poucas rugas e cabelos curtos encarapinhados levemente grisalhos. Usa uma blusa estampada azul e preta e um brinco em formato de pérola. Está em frente a uma parede descascada.

(nascida em 14/07/1962)


O apelido, Lapinha, a acompanha desde pequena — e ela já se acostumou a carregar esse nome cheio de afeto.


Filha de Maria Juciada da Conceição, que morreu cedo e deixou os filhos pequenos, Dona Lapinha foi criada pelas irmãs mais velhas — irmãs só por parte de pai — e ajudou a cuidar do irmão mais novo, Mestre Tião, também homenageado na primeira edição do projeto em 2023.


Ela conta, rindo, que Tião tinha muito ciúmes dela com o pai: “Ele achava que o pai tinha que ser só dele, descarado!”, brinca.


O pai, Sebastião Leocádio dos Santos, era figura ativa nas tradições do quilombo. Quando Lapinha era pequena, ele organizava o samba duro, mas mais tarde se converteu ao evangelho. Hoje, quem mantém viva essa tradição é Mestre Tião.


Dona Lapinha passou a vida dividida entre o Quilombo de Santo Amaro e o Quilombo do Porto de Trás. Até hoje, segue assim: um dia lá, outro aqui. Quando fomos ao Santo Amaro, tivemos o privilégio de provar uma comidinha deliciosa preparada por ela no fogão à lenha — sabor de história e de afeto.


Religiosa, caminha entre o candomblé e o catolicismo, vivendo a fé de forma ampla e plural.

Sempre foi marisqueira no Rio de Contas, pescando para alimentar a família e vendendo mariscos para pousadas.


No primeiro casamento, teve três filhos: dois homens e uma mulher. Um mora no Rio de Janeiro, os outros dois em Itacaré. Eles lhe deram sete netos e quatro bisnetos, laços que ela carrega com orgulho e alegria.


Ela lembra, sorrindo, que no quilombo tudo era samba: “Fazia uma tapagem (casa de taipa), era samba; tinha o bicho caçador, era samba.” Aprendeu a sambar ainda menina, com as irmãs mais velhas. Deu até uma palhinha para a gente, cantando um samba sobre o oitizeiro e o amor — voz cheia de força, alma pulsando.


Ela fala com carinho da tapagem, a tapeira de barro, feita coletivamente. “Quando acabava, era cachaça pra todo mundo e muito samba duro.


Lembra bem do Porto de Trás antigo: muito barro, sem carro, os meninos brincavam livres. Com o tempo, viu muitas manifestações se perderem à medida em que os mais velhos partiram. Mas conta, cheia de esperança, que hoje os jovens têm demonstrado mais interesse em resgatar as tradições.


Não havia energia elétrica — iluminavam-se com candieiros e velas. A água vinha das fontes na Passagem: tinha fonte para pegar água, fonte para tomar banho, tudo carregado na cabeça. “Agora acabaram com as fontes. O povo foi fazendo casa e acabou tudo”, lamenta.


Sobre a origem da família, sabe pouco. O pai nunca falou sobre seus pais ou parentes e ela não chegou a conhecê-los. “Ele tinha parentes, mas nunca me levou para conhecer”, conta, com um misto de curiosidade e saudade.


Dona Lapinha é daquelas mulheres que carregam na pele a força do rio e no peito o batuque do samba. Entre mariscos, fogão à lenha e cantoria, constrói um território de resistência, sabor e alegria — mantendo vivas as histórias que correm como água pelas veias do quilombo.

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