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Boca de Louça - Antônio José dos Santos

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Boca de Louça, homem preto de 65 anos. Ele sorri e deixa à mostra seus dentes amarelos. Está usando um boné, óculos com aros pretos e uma camiseta verde. Ao fundo, uma parede em tom pastel.

(nascido em 17/01/1960)


Seu Antônio José dos Santos é conhecido por todos como Boca de Louça. O apelido veio dos tempos de farra, quando bebia muita cachaça, falava alto, fazia zoada e ninguém conseguia ignorar sua presença.


Hoje, já são 18 anos sem álcool. Ele brinca dizendo que antes fazia “um km por litro de cachaça”, mas garante que largar a bebida lhe trouxe saúde, tempo, dinheiro e simpatia: “Quando eu bebia, era muito briguento”. A cachaça ficou para trás, mas a alegria e a zoada continuam vivas.


Nascido no Quilombo do Quitumbo, em Maraú, foi criado ao lado de 11 irmãos. Perdeu o pai cedo e, como filho mais velho, assumiu a responsabilidade de cuidar da mãe e dos mais novos.


Não pôde estudar, embora houvesse escola — tinha que trabalhar. Os pais, Isabel dos Santos e Antônio Cosme Santos, eram chegados da região de Camamu. Sobre os avós, pouco sabe: “A história com os mais velhos era pouca”, diz com precisão, “e se contassem, a gente já teria esquecido. Não tinha como gravar”.


Foi ainda adolescente que conheceu sua companheira de vida, a querida Dona Santinha, também nascida no Quitumbo. Ele costuma dizer rindo: “Lombrei logo!”. Namoraram cedo, foi a primeira e única namorada. E já somam 50 anos de união. Vieram para Itacaré há quatro décadas, convidados por Mãe Júlia, do Terreiro de Nanã no Santo Amaro, que lhes ofereceu um pedaço de terra. Aqui criaram os filhos, ajudaram a fundar a Associação de Moradores e se tornaram parte essencial da vida comunitária.


Boca de Louça é pai de 12 filhos e uma infinidade de netos e bisnetos. Gosta de brincar que não havia televisão, só um radinho de pilha que passava de mão em mão, trazido pelos estivadores. Ainda guarda com carinho um daqueles rádios antigos.


Além de trabalhar na roça e pescar, é artesão habilidoso. Aprendeu a fazer panacum para carregar os filhos — prendia ele, um de cada lado, nos animais, enchia de crianças e assim percorriam os caminhos até a roça e a fonte. Chegou a fazer panacuns também para carregar os netos.


Hoje, com o cipó que tira do mangue, tece bandejas, cestas, até bicicletas já fez. Dona Santinha ajuda a vender as peças, levando de ônibus até Ubaitaba e voltando no fim do dia com o dinheiro das vendas. Ele promete, com aquele brilho no olhar, que um dia vai mostrar todo o processo no mangue: puxar, raspar, trançar o cipó, enquanto o café vai ficando pronto no fogão de lenha.


No Santo Amaro, Boca de Louça se reconhece também no samba. Toca pandeiro, tambor, canta e não consegue ficar parado quando o batuque começa. Participou de tapagens de casa, quando toda a comunidade se juntava para levantar paredes de barro, abençoadas com festa e Divino, no final dos trabalhos.


Lembra, com risada alta, da temperada de parida, bebida preparada após os partos. “A parida bebia pouca, quem bebia era quem chegava. A gente ficava esperando o parto para tomar a temperadinha, e tinha era 30, 40 litros!


Entre festas de São João, sambas e rezas de terreiro, Boca de Louça construiu uma vida inteira de memórias. De Quitumbo a Santo Amaro, sua história se mistura com a da comunidade. Hoje, aos 65 anos, é riso fácil, palavra certeira, mãos de cipó e coração de samba. Resistência e alegria em pessoa, guardião da memória viva do quilombo.

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