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Irmão Chico - Francisco Oliveira de Jesus

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Irmão Chico, homem preto de 86 anos. Ele olha para a câmera com feição serena e sorridente. Praticamente careca, possui poucos cabelos grisalhos em volta da cabeça. Usa óculos de aros pretos, está vestindo uma camisa polo azul clara e está à frente de uma porta de madeira pintada na cor azul escuro.

(nascido em 17/09/1939)


Quando chegamos, Irmão Chico estava sentado à porta de casa, repartindo pedaços de pão com os pombos. Uma rotina diária que revela a calma e o cuidado com que conduz seus dias.


Nascido e criado no Marimbondo, Seu Francisco sempre viveu no quilombo urbano que carrega em cada lembrança. Foi na igreja evangélica, há 23 anos, que ganhou o apelido de Irmão Chico, mas a vida inteira foi conhecido pelo sorriso largo, pela paixão pela cozinha e pela memória generosa que guarda das festas e histórias de Itacaré.


Filho de Bela Áurea de Jesus, parteira respeitada que trouxe muitas crianças ao mundo, e de Firmino Caxeiro, famoso vendedor de quebra-queixo que animava as ruas com sua sinetinha, ele cresceu em uma família de oito irmãos. Recorda o pai como um homem muito branco e cabelos lisos que “a gente penteava só com a mão”, e a mãe, preta e firme, sustentando a casa com trabalho e coragem.


Da infância, lembra da avó materna, que as crianças chamavam de vovó Bis, do tempo dos tamancos baratos feitos para os meninos pobres, que não podiam comprar tênis ou percatas, e das idas à escola que pararam cedo para dar lugar ao trabalho de carregar mercadorias na feira do Forte, quando os produtos ainda chegavam pelas embarcações.


A vida adulta foi marcada pela pescaria. Aposentou-se como pescador, tendo participado da fundação da Colônia de Pescadores ao lado de amigos que relembra com saudade. Trabalhava em barcos grandes, “nos panos”, que saíam carregados de gelo e voltavam dias depois abarrotados de peixe. Nunca teve barco próprio, trabalhava para os outros, e conhecia como ninguém o mar, o tempo e a lida.


Também foi cozinheiro em embarcações que percorriam Salvador, Ilhéus e Porto Seguro. E, dessa experiência, nasceu uma paixão: até hoje quem comanda o fogão em casa é ele. Fala com firmeza que a esposa Cremildes “só vai no pé do fogo dia de domingo” para lhe dar um descanso. Durante a semana é ele quem resolve tudo na cozinha– moqueca, feijoada, rabada, mocotó – e faz questão de enfatizar que deixa a cozinha limpa no final. Brinca que doce não é com ele: “eu só como”.


Se orgulha de contar que, quando a primeira esposa ganhava neném, era ele quem preparava o pirão da parida, matava a galinha e fazia o escaldado. Já a temperada de parida era feita por amigas. Essa ele apreciava muito. Há 23 anos, deixou de beber e nos conta com alegria essa mudança de vida.


Casou-se jovem, aos 20 anos, com Dona Lindinalva, com quem viveu por 35 anos, “até que Deus a recolheu”, como ele mesmo diz. Tiveram 18 filhos, dos quais 12 sobreviveram – os outros partiram ainda pequenos, levados pela chamada “doença de anjo”. Vieram netos, bisnetos, mas ainda não tataranetos.


Alguns de seus filhos seguiram seus passos, no mar e na cozinha. O caçula, com orgulho ele conta, é hoje chef em uma grande pousada e foi quem preparou a comida em seu último aniversário.


Há mais de duas décadas, conheceu Dona Cremildes, que lhe roubou o coração e também lhe apresentou a fé evangélica. Católico por sessenta anos, conta que carregou andores, cantou missas, ajudou procissões.


Também foi homem do samba, das serestas, do pandeiro, dos carnavais e da tradicional Mudança do Marimbondo, cortejo irreverente que encerrava o carnaval com jegues enfeitados, panacuns de comida e gente cantando com panelas e pinicos. Recorda ainda da época de Seu Morenito, importante organizador das festas populares, que mantinha vivo o Bumba meu Boi, os afoxés e outras manifestações. “Eu amanhecia o dia nas festas”, conta, rindo da lembrança. Hoje, vive a fé com devoção e se diverte com o futebol, torcendo pelo Vitória e fazendo a resenha com os rivais do Bahia.


Guardião de memórias de Itacaré, Irmão Chico lembra da lagoa onde hoje é a Praça da Bíblia, dos jardins da Praça São Miguel moldados cuidadosamente pelo jardineiro “Pão de Leite” em formas de bichos e móveis, da feira que passou por vários endereços, dos barcos grandes que desapareceram com a chegada das estradas e até da figura lendária de Cuca, que pintava urubus de branco – “eu vi os urubus pintados!”, garante.


Entre tantas histórias, ele permanece como ponte entre tempos, trazendo no corpo e na fala a força de quem resistiu ao mar, às dores e às mudanças, mas segue firme, vivendo no Marimbondo, cercado pela família, pela fé e pelas lembranças que guarda da cidade.

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