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Dona Luci - Lucia Mendonça Bricidio

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Dona Luci, mulher negra de 79 anos. Ela está sorrindo, com um olhar sereno. Tem o rosto vincado com rugas, mas os cabelos são pretos, curtos e encarapinhados. Ela veste uma blusa estampada em tons de amarelo e rosa e está em frente a uma parede amarela.

(nascida em 07/01/1946)


Nascida e criada em Itacaré, Dona Luci é dessas figuras que carregam a memória da cidade no jeito de falar, de viver e de lembrar. Filha de pais também nascidos em Itacaré, cresceu em uma família numerosa — cinco mulheres e quatro homens — todos filhos da terra.


Aos 10 anos foi morar com a avó materna, Dona Crotildes Evangelista Lima, com quem viveu até os 17. Não chegou a conhecer os avôs — nem o materno, que faleceu quando era pequena, nem o paterno, Daniel, um espanhol que veio para a região nos tempos em que “muito gringo chegava por aqui”, segundo contam os mais velhos. A avó paterna, Dona Maria Clementina, também partiu quando ela era muito pequena e não tem lembranças.


Ainda jovem, Dona Luci percebeu que, naquela época, as possibilidades de trabalho em Itacaré eram poucas. Sem turismo e sem opções na cidade para quem não morava na roça, restava trabalhar para a prefeitura ou “lavar roupa de banho”.


Foi assim que, aos 27 anos, partiu para Salvador. Lá viveu por 32 anos, até retornar definitivamente em 2004, já aposentada. Nunca se acostumou com a capital: “Sempre soube que voltaria”, conta.


Naquela época, ir de Itacaré a Salvador era uma verdadeira saga. E Dona Luci fez esse trajeto muitas vezes, já que trabalhava na capital e mantinha laços fortes com a família em sua terra natal. Havia dois caminhos possíveis, ambos difíceis.


A primeira opção envolvia uma longa caminhada pela mata: de Itacaré até Serra Grande, eram cerca de 30 quilômetros a pé, para então pegar um caminhão que seguia pela beira da praia até Ilhéus. Lá, embarcavam nos navios que partiam para Salvador. Na volta, o percurso era o mesmo — do navio para o caminhão e do caminhão para os próprios pés, entre mato, barro e lembranças. Dona Luci recorda que nesse trecho da mata era comum cruzar com serpentes e até onças: “era um medo danado, mas a gente ia mesmo assim”.


A segunda opção era embarcar em barcos menores que conseguiam entrar no porto de Itacaré. A travessia era lenta: três dias e três noites de viagem, dormindo em beliches no porão e comendo o que os barqueiros serviam. “Quando o vento ajudava e a chuva não atrapalhava”, ressalta. Esses barcos eram “nos panos”, como ela diz — sem motor, dependentes da força do vento e da fé de quem neles seguia.


Ela se lembra de histórias de naufrágios, como o do barco Acaraí, que afundou e vitimou estudantes que vinham passar as férias em Itacaré. Por isso, celebra hoje as transformações da cidade: “Com o turismo, o povo não precisa mais sair para trabalhar fora.


Mesmo aposentada, Dona Luci não para. Frequenta o CRAS, participa de caminhadas, atividades físicas, yoga e palestras. Gosta de dizer que o importante é estar em movimento. Ama pescar de anzol, molinete, pegar caranguejo no mangue e siri com siripoia — apetrecho que compra com Seu Izio. A pesca é seu passatempo, e também a garantia da moqueca e do encontro com as amigas marisqueiras no Forte, no Pontal ou no Rio de Contas.


Lembra com saudade da Itacaré de quintais, onde se cultivavam chás, hortas e pomares. “Hoje é só batimento de laje, não tem mais quintal pra nada. Tudo temos que comprar no mercado”, lamenta. Diz que a alimentação de antigamente era mais saudável: peixe pescado pelo tio, carne salgada no fogão de lenha, frango e ovos de quintal. “A comida era sem veneno. Hoje as crianças estão tudo inchadas e doentes.


Não teve filhos, mas criou sobrinhos com carinho e presença. Mora com a irmã, Dona Cira, homenageada na primeira edição do projeto, em 2023.


Católica de fé firme, participa todos os anos da excursão à Bom Jesus da Lapa. Em casa, mantém seu altar com os santos devotos: Nossa Senhora Aparecida, Pai Eterno, Mãe Rainha, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Santo Antônio — a quem dedica três dias de reza, mingau e bolo, celebrando com a família e os amigos.

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