Dona Madá - Maria Madalena Nascimento dos Santos
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 08/01/1953)
O nome Maria Madalena foi escolha da mãe, que queria muito que a chamassem de Madá. E assim ficou: Dona Madá, figura querida no Marimbondo, mulher de riso largo e palavra firme.
Nasceu na Povoação, em Itacaré, em 1953. Filha de João Fagundes dos Santos, do Quilombo Serra de Água, e de Dona Margarida Maria Nascimento dos Santos, também da região da Povoação — “preta, preta, preta”, como Dona Madá repete com orgulho.
A família carrega histórias de resistência e encontros improváveis. A avó paterna de Dona Madá, Dona Romana, era branca, de olhos azuis, descendente de alemães. Apesar de ser casada com o “caboclinho bonitinho”, como Dona Madá descreve o avô paterno, João Francisco dos Santos, Dona Romana não aceitava o casamento do filho com Margarida por ela ser negra. No entanto, no fim da vida, foi justamente Margarida quem cuidou da sogra.
Os avós paternos nasceram em Serra de Água e os maternos, João Germano e Maria Joana da Conceição, eram negros do Quitumbo. Dona Madá lembra com carinho que o avô João Germano contava histórias e jogava baralho com os netos. “A criançada adorava, a gente dava muita risada”, recorda.
Os pais de Dona Madá, João e Margarida, tiveram 11 filhos na roça, todos nascidos pelas mãos da parteira Dona Guilhermina, madrinha de Dona Madá.
Ela começou a trabalhar cedo: aos 9 anos já capinava roça de mandioca, criava porco, galinha. “Com 11 filhos, não tinha como mãe botar a gente na escola”, conta. Alguns irmãos chegaram a estudar depois que foram morar com a madrinha na cidade. Ela, não. “Faço meu nome tortinho, por mim mesma.” Só entrou em uma escola de verdade pela primeira vez quando acompanhou a filha mais velha em uma reunião de pais. Apesar de não ter tido estudos, se sente grata: “Minha mãe não me deu estudo, mas me ensinou a respeitar os mais velhos e a trabalhar pra sobreviver.”
Casou-se com José Alves dos Santos aos 19 anos. “Ele só tinha o dia e a noite”, brinca. E juntos conseguiram, por meio de muito trabalho, construir uma vida próspera. Viveram muitos anos na roça, plantando mandioca, criando porcos e levando os produtos para vender na feira, que na época era na Praça do Canhão.
Guardavam tudo numa casinha que tinham no Canhão, onde dormiam na véspera da feira, e aproveitavam para curtir as noites animadas na Casa do Samba. Mais tarde, montaram uma olaria. “Já cortei tijolo, tirei barro do barranco, desenformei tijolo”, conta orgulhosa.
Ela e Seu José tiveram cinco filhos, todos moradores de Itacaré. Dona Madá conta que ela “arranhava muito na roça” para garantir que todos pudessem estudar. Além dos filhos, criou “um bocado” de crianças: afilhados, sobrinhos, filhos de amigos. Hoje, são nove netos e um bisneto.
Depois que Seu José faleceu, há 17 anos, Dona Madá vive pelos filhos e netos. Mas lembra com alegria das festas que viveram juntos: muito forró, samba duro, radiolas na roça, festas juninas na cidade. “Já me diverti um bocado.” O joelho hoje não permite dançar, mas a saudade boa fica.
É católica de fé firme, devota de São Miguel, Bom Jesus da Lapa e Nossa Senhora da Guia. Já foi muitas vezes à Bom Jesus da Lapa — primeiro de caminhão, agora vai de ônibus.
Dona Madá carrega no olhar a força de quem fez do trabalho e do afeto as maiores heranças. Uma vida inteira dedicada à família, à roça, à fé.






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