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Dona Francisca - Ednalva Souza da Cruz

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Dona Francisca, mulher negra de 73 anos. Apesar da idade, ela possui poucas rugas na pele, sorri de forma serena e seus cabelos trançados são na cor preta. Ela usa um óculos de aro marrom, com lentes fumê, e veste um vestido amarelo com estampa de folhas de palmeira verdes.

(nascida em 16/10/1953)


Dona Francisca foi registrada apenas quando já era adulta, mãe de dois filhos. O pai — de quem não guarda lembrança — fez o registro depois de ser procurado pelo filho mais velho para assumir a paternidade dos filhos. Ela acredita que ele tenha inventado o ano. Brinca dizendo que, pelo tanto que já viveu, deve ser bem mais velha do que diz o papel.


Nascida em Aurelino Leal, veio ainda menina para Itacaré, entregue pela mãe para ser criada em uma casa. Como já havia uma menina chamada Dinalva naquela família, passaram a chamá-la pelo nome da mãe: Francisca. No começo, não entendia, mas assim cresceu e assim ficou conhecida por todos.


A infância foi dura. Passou por diferentes casas até chegar a Itacaré. Não se lembra da idade certa, sabe dizer que era “menina que já lavava pratos”, como ela mesma conta, por volta dos nove anos, quando a mãe a deixou para ser “menina de recado” da matriarca da família.


Lembra que não saía para nada além do trabalho, ajudava no que fosse preciso. Foi uma infância sem escola, mas não sem aprendizado: com a cartilha do ABC, aprendeu a ler sozinha. “Eu leio muito, só não sei escrever”, diz com orgulho.


Entre tantas lembranças difíceis, guarda com carinho o afeto de Dona Bela, que nos deixou no começo de 2025 e a quem chama de “assistente social da cidade”, sempre pronta a ajudar quem precisava.


Saiu daquela casa apenas aos 20 anos, para se casar com Raimundo Bento da Silva, companheiro de toda a vida. Viveram juntos por 40 anos, até que ele faleceu, há 15 anos. “A primeira casa era de taipa, depois virou de bloco”, conta. A tapagem foi feita em mutirão com os amigos, terminada com festa e direito até a Divino, em que as crianças modelavam bolinhos de barro.


Tiveram quatro filhos. Três hoje moram em Itacaré e um em Salvador. Vieram também nove netos e sete bisnetos, a quem ela dedica grande parte do seu tempo. Desde a partida do marido, não quis mais homem: “Só cuidar dos filhos e dos netos”.


Além do trabalho em casas de família, foi gari por dez anos – uma das primeiras mulheres a ocupar a função em Itacaré, quando a prefeitura substituiu os meninos que “não varriam direito” por mulheres. Também trabalhou na roça de terceiros: capinando, plantando, descascando mandioca.


Dona Francisca sempre manteve um quintal com horta, galinhas e porcos, até que a casa foi sendo ampliada para os filhos e o espaço virou laje. O que ela lamenta, pois sente falta dos temperos que cultivava.


A vida adulta, depois de casada, foi marcada pela alegria das festas. Lembra com saudade do 2 de Julho, organizado por Seu Morenito e Dona Neri, com samba e o cortejo da Catita: “era o melhor 2 de Julho, que hoje a gente não tem mais”. O mês de junho era inteiro de festas de São João; A Festa de São Miguel também era grande; e no carnaval, não perdia Os Caretas. Chegou a vestir o dominó, mas não gostou. Gostava mesmo era do samba, do Samba Leoa – que ainda acompanha –, embora sempre tenha evitado a Volta da Jiboia: “Tenho pavor de cobra!”, solta rindo.


Do Marimbondo, recorda a Mudança, cortejo irreverente no último dia de carnaval:

Tinha um jegue, botavam uma cangalha no jegue, dois panacuns... todo mundo com um bocado de coisa: trouxa na cabeça, samburá, rede, gente com vassoura varrendo as ruas, e saíam pelas portas... e todo mundo cantando e dançando.


Recolhiam comidas e bebidas que as pessoas ofereciam para, no final, fazer uma grande festa regada a muito samba. “Acabou porque o povo foi desanimando, envelhecendo... e aí acaba”, lamenta.


Dona Francisca nunca deixou de valorizar as amizades. Recorda com carinho das companheiras que a ajudavam quando ganhava neném, preparando o pirão da parida e a temperada de parida: “Gostosa! Muito boa”, lembra. Católica de fé, também aprecia a beleza do candomblé: “Gosto do balanço, acho alegre e bonito.


Guarda ainda imagens de um Marimbondo de cinquenta anos atrás: com curral, gado, jaqueiras, mata fechada e “cobras no mundo”, conta ela. Destaca o valor da comunidade: “Os nativos não venderam suas casas, como aconteceu em outros bairros. Aqui ficaram os filhos, os netos, e isso mantém a união no Marimbondo.


Da Passagem, lembra das bicas onde as mulheres lavavam roupa, carregando bacias de fundo de pau, dos banheiros coletivos e do esforço de levar água na cabeça até o Canhão.


Com uma vida que começou em dores, Dona Francisca se reinventou na alegria. Hoje, viaja para visitar o filho e netos, vai à Lapa, mas não nega: “Não tem nada melhor do que uma festa com samba”. E é com esse sorriso aberto que segue vivendo, espalhando amizade, força e resistência no Marimbondo e em Itacaré.

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