Dona Bela - Belanísia Maria da Conceição
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 10/02/1937. Data na Certidão de nascimento: 05/05/1935)
“Eu devo ter uns 300 anos”, respondeu Dona Bela, rindo, quando perguntamos sua idade. E quando quisemos saber onde nasceu, disse: “Em cima de uma cama.” E onde ficava a cama? “Num quarto.” E completou, entre risadas: “Acho que foi no Socó, mas não lembro, não...”
Hoje, Dona Bela fala pouco, anda com dificuldade e precisa de muito cuidado. Passou por infarto, AVCs, diabetes e a memória já se dispersa. Mas seu brilho ainda mora ali, vivo nos olhos e nas memórias que a filha Lavina, de 59 anos, guarda e conta com amor.
Nascida no Socó, território quilombola que nunca foi reconhecido e hoje, segundo Lavina, “já não tem mais ninguém por lá”, Dona Bela carrega uma história de força desde menina. Contava que aumentaram sua idade no registro para que pudesse votar — por isso a diferença entre a data do documento e a real.
Saiu do Socó com apenas 6 anos para morar com a madrinha em Itacaré, onde ficou até os 9. Depois foi levada pelo filho da madrinha, Antero, estivador, para trabalhar como doméstica em sua casa em Ilhéus: cuidava das crianças, cozinhava, lavava roupa e ainda arrumava tempo para estudar. Mesmo passando por muitas dificuldades e agressões físicas, seguiu firme. Foi ali que, com muito esforço, fez um curso de costureira — e contava com orgulho que era “formada costureira”, algo que sempre lhe enchia o peito de alegria.
Aos 16 anos, com a morte da patroa, voltou para Itacaré e logo depois foi para Salvador trabalhar, também como doméstica. Aos 20, retornou para Itacaré e se casou com José Arlindo dos Santos, do Quilombo João Rodrigues. Moraram primeiro na casa dos sogros e depois no Quilombo do Santo Amaro.
Com Seu José, teve 15 filhos e criou 10 — cinco partiram cedo, ainda no colo. Quando o marido ficou doente e faleceu, Dona Bela tinha 40 anos. Pouco depois, viveu outra dor: a filha mais velha, Gracinha, faleceu apenas três meses depois do pai.
Para criar os filhos sozinha, lutou muito: trabalhava na roça, em casas de famílias, mas não deixou faltar comida nem entregou nenhum dos filhos, mesmo quando ofereciam para levar. “Ela fez questão de criar todos”, lembra Lavina.
Religiosa desde sempre, Dona Bela arrumava todos os filhos com esmero para ir à igreja. Mesmo tendo nascido numa família de candomblé — a mãe, Dona Merandolina, nascida e criado no Quilombo do Fojo frequentava o terreiro —, Dona Bela seguiu sempre católica.
Após ficar viúva, assumiu a Igreja de São Miguel: cuidava das flores, organizava tudo, levava o padre para celebrar no Socó e na trezena de Santo Antônio. Foi também a primeira Ministra de Eucaristia de Itacaré, cargo em que sofreu muito preconceito: “As pessoas mudavam de fila quando viam que era ela quem ia ministrar”, conta Lavina.
Foi presidente do Apostolado da Oração do Sagrado Coração de Jesus por 12 anos, ajudou a reativar o grupo junto com Dona Mãezinha e outras mulheres. Seus santos de devoção: Nossa Senhora da Conceição, Santo Antônio, São Miguel, São José. No peito, carregava a Cruz de São Bento como proteção.
Na casa, havia sempre costura: Dona Bela costurava na maquininha de mão para toda a família. Mesmo com estudo só até o primário, ensinou todos os filhos a ler antes de irem para a escola. Lavina e seu irmão Itamar se formaram professores. Todos os filhos estudaram, embora os mais velhos enfrentassem dificuldades para frequentar a escola quando viviam só na roça. Hoje, todos vivem em Itacaré.
Segundo Lavina, uma avó de Dona Bela foi “pega no mato”. Não se sabe se era uma mulher indígena ou uma escravizada fugida — apenas que foi tirada do mato e criada. Uma história que carrega as marcas profundas de resistência e ancestralidade presentes em toda a trajetória da família.
Dona Bela segue construindo, em silêncio, um legado de força, fé e dignidade. Mesmo com a fala fragilizada, permanece espirituosa, cheia de graça e leveza.
Foi um presente raro poder estar na presença de Dona Bela — ouvir, através de Lavina, o eco de uma vida inteira bordada em coragem, trabalho, amor e no orgulho de ter se tornado costureira.






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