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Abodeu - Aloísio Santana de Jesus

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Abodeu, homem negro de 81 anos, com os dois braços apoiados em uma janela. Ele é calvo, com cabelos brancos ralos em volta da cabeça. Ele olha com uma feição séria e usa uma camiseta clara com estampa indefinida.

(nascido em 26/10/1944; falecido em 25/07/2025)


Iria completar 81 anos, mas partiu em 25 de julho passado, deixando saudades. Abodeu era daquelas figuras que todo mundo conhecia. E não é só pelo nome — é pelo jeito. Pela risada fácil, pelas histórias cheias de caminho, pelas lembranças do tempo em que Itacaré era chão de terra e trilha de mato.


O apelido nasceu de uma dor. “O pai me deu uma surra... e eu gritava ‘Ai meu Deus! Ai meu Deus!’ Daí ficou Abodeu.


Quando perguntamos o motivo da surra, ele conta com certa tristeza: “Eu era menino, tava na passagem onde o povo tomava banho. Tinha umas mulheres lá demorando demais. Quando saíram, disseram que eu tava espiando. E meu pai acreditou, me bateu. Até hoje isso me dói... Eu não espiava nem a mulher minha tomando banho, quanto mais a dos outros.


Filho de Naziozênio Santana — o Seu Nazi, que organizava o Bicho Caçador em Itacaré — e de Dona Firma Maria de Jesus, Abodeu perdeu a mãe ainda pequeno, com 3 ou 4 anos. O pai partiu pra trabalhar como estivador no Espírito Santo. Depois de um tempo, mandou buscar o filho. Abodeu embarcou num barco de carga chamado Aleodário. Chegou até o Prado, mas a carga foi suspensa. Voltaram pra Salvador.


Quando chegou a hora de embarcar de novo, ele se recusou. “Disse que não ia mais” e retornou para Itacaré. O barco partiu. Nunca mais chegou. “Desapareceu no mar... até hoje não chegou em lugar nenhum.” Nunca mais teve notícias do pai.


Abodeu foi criado por muita gente: padrinhos, vizinhos, conhecidos. Saiu pelo mundo, trabalhou. Um dia voltou a Itacaré e ficou. “Peguei família aqui.” Casou-se com Dona Domingas, filha de Domingos Clemente, mulher de fibra, nascida e criada em Itacaré. Ela era seu amor. “Ela dizia que nunca me viu bravo. Depois que ela se foi, não quis mais ninguém.


Quando perguntamos quantos filhos tiveram, ele com o jeito brincalhão que nunca largava, disse: “Ela teve 3, né?” — Perivaldo (que já partiu), Paulo e Ana Paula. Era um avô carinhoso de 6 netos e bisavô de 4 bisnetos. Morava com a filha, a neta e as bisnetas. “Acolho com carinho... é tudo meu.


Mesmo sem ter estudado — “não tive chance” —, Abodeu aprendeu com a vida e lembrava com detalhes da Itacaré de antes.


Nos contou sobre o bairro da Passagem quando não tinha rua, só trilha: “Onde é o campo, era o Gamba Canela, onde os meninos jogavam bola. As fontes eram separadas: uma pra lavar roupa, outra pra tomar banho, outra pra pegar água.


Recordava também do tempo em que os estivadores chegavam com os radinhos portáteis. “Não tinha televisão não, mas rádio tinha. E quem trouxe foi eles.


Nunca participou do Bicho Caçador, mas a porta da casa sempre esteve aberta quando o cortejo passava. “Eles dançam, entram, comem, bebem o que tiver.” Gostava de tudo: samba, festa, alegria. “O que for divertido, eu gosto.


Seu Abodeu era a história viva do Marimbondo — dessas figuras que sustentaram a memória de Itacaré no jeito de falar, de viver e de lembrar.

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