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Seu Juvenal - Juvenal Augusto da Silva

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Seu Juvenal, homem preto de 88 anos, Apesar da idade, aparenta jovialidade, mesmo com as rugas no rosto. Ele sorri. Tem cabelos curtos grisalhos e encarapinhados, usa bigode fino grisalho. Está vestindo uma camiseta azul e está à frente de uma parede de blocos de cerâmica.

(nascido em 28/07/1937)


Seu Juvenal nasceu em Serra de Água, de um jeito inusitado que ele nos conta, rindo: “Eles estavam lá fazendo farinha, minha mãe deu de ter menino, e foi lá que eu nasci. Assim minha mãe e meu pai dizia, né?”.


Veio ao mundo dentro da Casa de Farinha d’Água, movida pela força da água, cujo funcionamento ele explica com entusiasmo. “Já trabalhei em casa de farinha rodando no braço e até por animal”, acrescenta, orgulhoso.


Filho de Augusto da Silva e Domingas Maria da Conceição, ambos de Taboquinhas, cresceu em família numerosa. “Meu pai era muito animado, fez filho no mundo”, diz com um sorriso maroto.


Desde cedo, o destino foi a roça. Plantava de tudo e levava a produção “nas costas dos animais” até Uruçuca e Ubaitaba para vender. Para chegar a Itacaré, o esforço era ainda maior: “O povo ia de canoa remando, montado em animal ou a pé”.


Entre risos, lembra que muitas vezes ele mesmo fez o percurso a pé. Quando perguntamos quanto tempo levava, responde sem titubear: “Naquele tempo, a gente não contava as horas, não!”. E acrescenta, com firmeza, que naquela época a sede de Itacaré era apenas uma pequena vila de pescadores: “Taboquinhas era quem governava Itacaré.


Causos não lhe faltam. Garante já ter sido “ofendido de cobra” — como chamam a picada do animal — quatro vezes. Em duas delas, confessa rindo, tinha bebido: “Como eu tinha tomado umas, não deu nada. Mas das vezes que eu não tinha bebido, quase morri!” Também recorda o tempo em que “ninguém tinha sapato, o sapato era o tamanco de tábua, com correia de couro de boi”.


Trabalhou em tudo: na roça, na casa de farinha, como açougueiro — “sei matar e destrinchar boi” —, já chegou a criar vinte cabeças de gado e quinze burros de carga. Também pescava, mas só o necessário: “Lá em casa, a gente pescava só pra comer.” E sempre que está em Serra de Água, não perde o hábito: “Eu boto o manzuá ou o anzol, e pronto.


No amor, não faltaram histórias. “Um bocado de mulher já morou comigo, mas casar mesmo, só com a última. Foi ela quem me pediu. E foi ela quem casou comigo”, diz em meio a risadas.


Foram 32 anos de vida com Dona Anita, com quem teve três filhos. Até que, como ele diz, “Deus mandou chamar”, há dois anos. No mesmo ano, perdeu também dois filhos. Restou José Nobre, que hoje cuida da roça da família e faz transporte entre Serra de Água e Taboquinhas.


Seu Juvenal nunca foi à escola — “não sei ler nem escrever” — mas se orgulha de ter oferecido aos filhos a oportunidade: “De manhã iam pra escola, do meio-dia pra tarde iam pra roça.


Sobre os netos e bisnetos, diverte-se: “Não sei quantos são, porque os meninos que tenho em casa são muito danados.” Já são tantos que até tataranetos tem. E se alegra em poder ajudar: “Peguei emprestado, mas não vou deixar a menina sem o tratamento”, diz sobre a bisneta que sofreu um acidente e ele tem apoiado financeiramente.


Os caminhos nunca foram leves. Perdeu um olho em uma empreitada, mas segue firme e cercado de amigos. Hoje mora em Taboquinhas, numa casinha comprada, tranquilo e bem de saúde. “Moro só, como comida de hotel, tenho moça que ajuda na faxina. Mas se eu quiser ir pra roça agora de pé, eu vou! Tô com essa idade, mas ainda posso fazer muito, dona menina.


Entre memórias, revive os mutirões de tapagem das casas: “Todo mundo melado de barro. Depois vinha o Divino e à noite era festa, com samba e comida.” O Divino era o momento em que, após a tapagem, os participantes saíam pelas ruas cantando e levando pequenos bolinhos de barro, transformando o trabalho em celebração. E o samba, diz ele, estava em tudo: “Até uma reza que o povo fazia, depois tinha samba.


Recorda com brilho nos olhos as festas de São João — “era o mês todo, noite e dia” — e o Bumba Boi, quando o povo seguia o boi enfeitado em cortejo. Cantavam, sambavam sem parar. E a mesa era farta, com boi e porco abatidos. Rindo, ele resume: “Era comida que só acabava quando não tinha mais.” A celebração só terminava quando a abundância se esgotava — e às vezes durava dias.


Católico, frequentador da igreja, guarda em casa os santos que foram da esposa. Sempre risonho, espirituoso e de coração aberto, Seu Juvenal é memória viva de Serra de Água — transforma a dureza do caminho em generosidade, e a lembrança em riso.

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