Dona Lourdes - Maria de Lourdes Nascimento de Jesus
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 06/08/1943)
Dona Lourdes mora no coração do Quilombo Serra de Água. E é ali, em sua própria casa, que quase todo mês recebe o padre para rezar uma missa — já que o quilombo não tem igreja.
A sala se transforma em templo e, depois da reza, ela oferece comida, bebida e acolhimento: “Só não dou o coração!”, brinca, sorridente. Foi assim também no último aniversário, comemorado com missa e festa.
Celebrar a vida é tradição. Por quatro anos seguidos, ela foi à Bom Jesus da Lapa, de caminhão, com uma comitiva de vizinhos. Acampavam pelo caminho e ela diz que “era muito divertido”.
Filha de João Nascimento de Jesus e Albertina Soares de Andrade — que faleceu no parto —, Dona Lourdes cresceu em Serra de Água. Foi criada, dos 4 aos 10 anos, por uma família amiga, a oportunidade que teve de se alfabetizar. Depois seguiu com a tia para Itabuna e, aos 13, voltou para viver perto do pai, de quem sempre cuidou até a morte dele, há 16 anos.
Diz que não sabe contar quantos irmãos teve. “Só sei que meu pai era animado!”, ri. Por parte de pai e mãe, teve apenas uma irmã, que vive em Uruçuca.
Aos 18 anos, casou-se com Seu Dudú e foi viver por 20 anos em Vila Maria, voltando depois para Serra de Água com dez filhos. Ao todo, teve 14 — sete homens e sete mulheres. “Mais que um time de futebol!”, brinca.
Criou os filhos “naquela vida de Jesus”, como diz — na roça, com muito trabalho e fé. Todos estudaram, muitos foram alunos da querida Dona Francisca, também homenageada nesta edição do projeto e que ensinava embaixo de uma barcaça. “Os que quiseram aprender, aprenderam.”
Hoje, ela já perdeu a conta dos netos e bisnetos — “sei que são muitos!”. Criou alguns netos, bisnetos e mantém viva a fé que a sustenta. Em sua sala, um altar repleto de santos. É devota do Bom Jesus e, com especial fervor, de Cosme e Damião.
Aos gêmeos milagrosos, ela atribui a cura do filho, que adoeceu aos 4 anos. “Pedi a misericórdia deles, e ele ficou bom. Desde então, faço caruru todo 21 de dezembro. Nisso lá se vão 50 anos.” Nos mostra, com orgulho, o terço dado por uma vizinha querida e o retrato na parede: ela, ao lado do pai — mandou fazer com “o pessoal que vem de longe”.
Dona Lourdes vive rodeada dos frutos que plantou: a casa ampliada com ajuda dos filhos, o fogão a lenha no quintal, galinhas, horta cheia de temperos e a água boa, vinda da fonte. Quase tudo o que consomem é dali. E até a casa de farinha da comunidade, hoje a única em funcionamento, foi construída por eles.
Foi a São Paulo duas vezes, “para dar resguardo” à filha nos partos dos netos, mas não gostou de lá: “muito frio”. Hoje, diz que está mais quieta: “Quando era moderna, saía por aí tudo. Agora não.” Mas logo emenda: “Só não sou de menor porque ainda faço de tudo, né?” E se diverte: “Com 82 anos, é brincadeira?”
Lembra com saudade das festas do quilombo: São João, samba de roda, terno de reis, bumba-meu-boi, candomblé... “Era muita alegria. Hoje o povo só gosta de paredão.” Contou, cantando, um samba feito pelo pai. Herdou dele o gosto por festas. E no dia do caruru, ainda dá sua sambadinha.
Dona Lourdes é força, fé e resistência. Entre santos, flores, quintal e lembranças, segue como guardiã dos costumes, da alegria e da memória do Quilombo Serra de Água.






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