Raimundo Faiúdo - Raimundo Silva de Jesus
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascido em 20/06/1950)
Nascido e criado em Serra de Água, Raimundo viveu toda a vida na comunidade. “Daqui só pro Kangamba” — diz, referindo-se ao cemitério em Taboquinhas, em tom de brincadeira.
É conhecido pelo apelido de Raimundo Faiúdo, por conta de uma falha no dente. Ele mesmo diz que gosta mais do apelido do que do nome: “Raimundo tem muito, mas Faiúdo só eu”.
Teve 16 irmãos, todos filhos de Jolita da Silva e de João Nascimento de Jesus, chamado João de Elizeu em referência ao avô. Conheceu a avó Amélia, mãe da mãe, nascida e criada em Duas Barras, comunidade de Itacaré.
Na escola, quase nada aprendeu. Gostava mesmo era de aprontar: ia para brigar, a professora se zangava e o mandava embora. Não demorou e largou de vez, trocando os cadernos pela tarrafa, que trazia para casa cheia de peixe. Os pais não faziam questão dos estudos e assim Raimundo começou a trabalhar cedo na roça. Até os 13 anos, confessa, era um menino muito danado.
Desde jovem, gostava de samba — não perdia um! Lembra com saudade do tempo em que o quilombo tinha muitas festas, sambas e serestas. Ele e Dona Domingas, com quem é casado há 52 anos, sempre faziam um balde de 50 litros de licor para o São João. “Antigamente o povo bebia. Hoje a gente faz e sobra”, conta. Este ano, prepararam licor de jenipapo, jabuti e maracujá — quase tudo ficou.
Recorda também das antigas brincadeiras e tradições da comunidade, como o Bicho Caçador, que era feito pelos mais velhos. Seus filhos só chegaram a conhecer essa manifestação em Itacaré, porque em Serra de Água já havia desaparecido. Havia também o Bumba Boi, que animava o lugar. Hoje, lamenta: “Nem pra comer o povo tá prestando. Aquele povo de antigamente foi tudo embora.”
Com Domingas, construiu uma família de quatro filhos — um adotivo —, cinco netos e outras crianças que ajudaram a criar. Bisnetos ainda não vieram, pois a neta mais velha prefere esperar, estudando e trabalhando antes de formar a própria família. Conheceu a esposa ainda pequeno, começaram a sair para as festas juntos, noivaram por dois anos e depois se casaram para construir a vida em comum.
Trabalhou a vida inteira com cacau e com roçagem, tanto em suas terras quanto nas dos outros, por empreitada. Também pescava para alimentar a família, voltando sempre com o samburá cheio.
Os produtos da roça eram vendidos nas feiras da região. Muitas vezes caminhava sete léguas para levar a farinha e a goma de mandioca. Sem estrada, era o animal que carregava a carga. A vida era de tanta dificuldade que até para registrar os filhos ele precisava ir a pé até a sede de Itacaré, gastando um dia para chegar e outro para voltar.
Hoje, Raimundo celebra as mudanças: o acesso à Serra de Água melhorou e Itacaré está mais bonito. Com orgulho, olha para a história que construiu junto de Dona Domingas, como raiz firme de sua comunidade.






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