Domingas Silva
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 04/09/1952)
O nome veio do dia em que nasceu: um domingo. A avó disse que já nascia com o nome do dia santo. Nunca gostou de comemorar o próprio aniversário, isso desde menina — se escondia, chorava, não queria festa. Não aceitava bolo nem presente, mas sempre fez questão de preparar festas para os outros.
O pai, Jorge Ribeiro da Silva, chegou à região ainda pequeno, junto com os avós que buscavam trabalho por aqui. Tempos difíceis!
A família retornou, mas Jorge ficou e foi criado por Seu João e sua esposa, avós “adotivos” sempre presentes.
A mãe, Josefa da Conceição, era nascida e criada em Serra de Água. Da linhagem materna, lembra da avó Firmina, mulher forte de fé e de saberes das folhas e plantas, que dizia que a bisavó tinha sido “pegada no mato a dente de cachorro”.
Casada com Raimundo há 52 anos, ergueu com ele a casa onde vive até hoje — primeiro de taipa, depois de tábua e, por fim, de alvenaria. Quando chegaram, era tudo mato.
Dona Domingas recorda as longas caminhadas até a feira de Uruçuca, onde vendiam o que tiravam da terra. Sair de Serra de Água naquela época era um desafio: não havia médicos, nem remédios. Quando as crianças adoeciam, precisava caminhar até Taboquinhas. E se gaba de que fazia o percurso em menos de duas horas, com criança apoiada na cintura.
Uma vez, foi a pé até Itacaré, mais de 30 km, para um caruru. Na volta, enfrentou seu maior medo: a viagem de canoa. “De jangada, eu não tenho medo, mas de canoa, sim”, conta rindo. Já das matas nunca teve receio: chegou a ser “ofendida” duas vezes por cobras pequenas e aprendeu da avó que o melhor remédio era comer muito toicinho de porco. Hoje, brinca ela, existe coisa ainda melhor: a banha do teiú. “É só pingar umas gotinhas que cura”.
Com Raimundo, teve quatro filhos – uma menina já falecida – além de um afilhado criado como filho. Todos nasceram no chão da casa, pelas mãos de parteiras ou da própria avó, que “pegou o primeiro bisneto”.
Entre o trabalho e a lida diária, sempre houve espaço para a diversão: bailes, sambas, festas e os candomblés da região, que segundo ela, eram vários. Gostava de ajudar a organizar, mas sem entrar na roda. Católica, devota de Bom Jesus, fez romarias para a Lapa e ofereceu muitas missas em sua própria casa, sempre seguidas de divertidas celebrações, regadas à samba e boa comida.
Estudou pouco, como tantas crianças do seu tempo, quando o trabalho vinha antes da escola. “Estudar pra quê? Pra aprender a escrever carta pra homem?”, lembra, rindo das palavras que ouvia dos mais velhos. Assim, aprendeu apenas a escrever o nome, mas fez questão de que os filhos estudassem mais, mesmo que precisassem sair da comunidade, aonde o ensino ia apenas até a 3ª série.
Começou a trabalhar cedo, aos 15 anos, nas casas de farinha e nas colheitas de cacau e nunca parou. Orgulha-se de ter ajudado o marido a construir tudo o que têm.
Hoje, mantém uma pequena vendinha na janela da sala, onde oferece mantimentos e guloseimas para a comunidade. No quintal, o fogão de lenha, as galinhas e os temperos que cultiva garantem o sabor da comida que prepara com carinho e generosidade. Porque, para Dona Domingas, repartir a mesa é também repartir memória e afeto.






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