Dona Chica - Francisca Paula Costa Santos
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 02/04/1938)
“Chica, quando o povo quer chamar. Quando não quer, é Francisca mesmo”, diz com graça essa senhora de fala firme e memória vívida, nascida num sábado, às dez da manhã, em Serra de Água, perto do ribeirão onde bebeu a primeira água da vida — e por onde quis permanecer para sempre. “Pra morar, só aqui. Outros lugares, só pra passear.”
Aos 87 anos, Dona Chica é uma das guardiãs mais antigas do Quilombo Serra de Água. Foi professora leiga — como ela mesma se define — num tempo em que a escola funcionava embaixo de uma barcaça de cacau, com as crianças estudando ao som da zoada do cacau sendo revirado no andar de cima.
Ensinou gerações inteiras: “Aqui teve família que eu ensinei o pai, a mãe e os filhos!”, conta com orgulho. E ainda promovia festas e brincadeiras que enchiam de alegria a meninada: amigo secreto, piquenique, quebra-pote, corrida de colher.
Gostava tanto de ensinar que, se fosse por ela, nunca teria parado. Bedeu, que nos acompanhou na entrevista, foi seu aluno e confirma: “Ela era uma excelente professora.”
É filha de Izautina Lopes e Osvaldo Manoel Costa, também nascidos e criados no seio de uma linhagem profundamente enraizada em Serra de Água e nas margens do Rio de Contas, território onde seus avós maternos e paternos também nasceram.
Ela conta que seu avô materno Antônio era neto de índia das matas. “O DNA puxa”, diz ela ao contar que o avô nunca usou mesa para comer, fazia tudo no chão. E chegou a conhecer os bisavôs Francisco e Joaquim e a bisavó Sizimbra, conhecida como “a velha africana”. Vieram todos de África.
A infância foi marcada pela perda precoce da mãe, aos 6 anos. Criada entre tias e madrinha, enfrentou dificuldades, mas carrega essas memórias com sabedoria e força. Casou-se com Anísio Conceição Santos, com quem viveu feliz por 35 anos. Viúva há 13 anos, ainda se ressente com a partida dele, queria que ele tivesse vivido mais tempo com ela.
Não teve filhos biológicos, mas criou os filhos dos outros com amor. Glorinha, sobrinha do marido, foi uma delas — formada em magistério, pedagogia e pós-graduação, é hoje diretora da escola de Serra de Água.
Trabalhadora incansável, Dona Chica conhece cada pedaço da terra onde vive. Plantava cacau, mandioca, quiabo, batata, cana — fazia mel de cana, e vendia o que colhia na feira de Taboquinhas. “Trabalhar é honra”, afirma com firmeza. “Quando você trabalha, sua mente tá pensando no serviço, não em malvadeza.” Ela viu a chegada da vassoura-de-bruxa devastar a produção de cacau da comunidade — de 60 arrobas por corte, restaram menos de 10.
Além de ensinar e plantar, também sambava — e com gosto. “Tinha muito samba por aqui, era o que mais se fazia”, lembra. “Agora o pessoal que sambava morreu tudo. A dança hoje é diferente.” Gostava das festas, das tradições — lembra do Terno de Reis, do Bumba-Meu-Boi, das rezas e das cantorias.
Hoje, vive uma rotina mais tranquila, mas continua cheia de vitalidade. Lê com lanterna os próprios documentos, assiste jornal, novela e jogo de futebol — é vascaína de coração. Cozinheira de mão cheia, ainda prefere o frango de roça ao do frigorífico e guarda com orgulho uma saia de crochê que ela mesma fez.
Católica de fé, chegou a frequentar o candomblé quando havia terreiro no quilombo. Filha de um território de ancestralidade profunda, Dona Chica é raiz viva de Serra de Água. No olhar atento, na fala sábia e nos gestos serenos, carrega a força das mulheres que educam, trabalham, resistem e mantêm viva a memória do seu povo.






Comentários