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Dona Guiomar - Guiomar Francisca da Paixão

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Dona Guiomar, mulher negra de cabelos grisalhos encarapinhados, amarrados para trás. Ela está maquiada, sorrindo, usando um vestido branco, além de diversos acessórios, como brincos, colar, pulseira, anéis e relógio de pulso. Ela está do lado de fora de uma casa, encostada em uma janela de madeira verde fechada e a parede ao fundo é amarela.

(nascida em 15/09/1949)


Quando fala, Dona Guiomar mistura sabedoria, riso e canto. É dessas mulheres que fazem da vida um terreiro de fé e música.


Com o pandeiro no colo ou o caderno das crianças que trouxe ao mundo nas mãos, ela se orgulha de cada história que guardou. “Foram trezentas e três crianças, marquei tudinho no meu caderno.


Nascida na Rua da Linha, antiga “Subaco da gata”, em Itacaré, é filha de Laurinda Francisca dos Santos e de Antônio Aristides da Paixão — o sambador conhecido como Seu Antoniozinho. Herdou do pai o dom da música e a força de uma linhagem marcada pela ancestralidade indígena. Do lado paterno, carrega o sangue guarani; do lado materno, o dos pataxós. “Meu pai dizia que a índia foi pegada a dente de cachorro.


Aos 11 anos, mudou-se para a Povoação levada pelo amor. Foi ali que se juntou a Adaltivo Hilário dos Santos, “meu grande amor, um encontro de almas”, como ela diz. Fugiram juntos — “tiramos os papéis em Guaraci e casamos nos calumbí” — expressão antiga usada para dizer que o casal não chegou a se casar oficialmente, apenas “fugiu” para viver junto.


Foi assim que começaram a vida, entre a alegria e a coragem de quem escolhe o amor acima das formalidades. Viveram 26 anos juntos, até a partida dele, aos 40. Tiveram três filhos, mas, como ela conta, “tudo fora de tempo”. Nenhum vingou. Mais tarde, acolheram uma menina recém-nascida, Maria José, que se tornou filha de criação, a razão da vida de Dona Guiomar, que lhe deu os quatro netos e seis bisnetos que hoje enchem a casa de afeto.


Mulher de muitos dons, Dona Guiomar se define como filha de Ogum e devota de Santo Antônio. Desde menina sentia a presença dos orixás guiando suas mãos nas curas do corpo e da alma. “Nunca tive pai nem mãe de santo, nasci com o dom.


Foi assim que se tornou referência espiritual na Povoação: com o terreiro aberto há décadas, recebe gente de toda a região, do Brasil e até da Europa. Orgulha-se dos filhos de santo espalhados pelo mundo.


Mas não é só de fé que vive essa mulher. É também de canto. Compõe desde os quatro anos e toca pandeiro, tambor, violão. Diz que as músicas “chegam na mente”. E ri ao lembrar da primeira: “Meu pai eu vou lhe contar / uma coisa que eu disse / se o senhor facilitar / a leitoa vai sair.


Guarda as letras num caderno que ela mesma escreve, mesmo achando que “escreve mal” — depois, a filha revisa. Seu sonho é gravar um disco!


Trabalhou na roça, plantou, colheu, pescou de todo jeito — de anzol, siripoia, rede e ratoeira. Criou guaiamum, costurou as próprias roupas e aprendeu tudo sozinha. Conhece cada tipo de casa de farinha: a d’água, a de músculo de homem (“no suvaco”), a de pé e a de animal. Lamenta que hoje não haja mais nenhuma na Povoação. “O povo que planta tem que levar de canoa e ainda pagar caro pra torrar nas casas de farinha dos outros.


Nas lembranças, revive o tempo das festas — o Terno de Reis, o Bumba Meu Boi e a Mulinha: “Uma mula de verdade, mansinha, toda enfeitada, com uma máscara na cara e o povo atrás cantando e dançando.


Fala com carinho de Seu Morenito, de Dona Percelina e Dona Jaci, mestres que marcaram a cultura itacareense. “Tinha que ter um memorial pra eles, pro povo lembrar dessas pessoas.


Também recorda com orgulho o tempo em que ajudou a fundar a primeira escola da Povoação, feita de taipa, que depois virou a Escola Municipal Maria Gorete.


Hoje, Dona Guiomar segue costurando, compondo e cuidando. Reclama que a comunidade já não tem a mesma união de antes — “antigamente o povo se juntava pra ajudar na roça, pra cuidar do neném, pra velar o morto... hoje só visitam a parida no domingo, se der tempo.


Ainda assim, permanece firme em sua fé e em sua arte, sustentando com doçura e coragem a memória viva da Povoação.

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