Seu Totonho - Antônio Silva da Cruz
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascido em 24/10/1940)
Seu Totonho nasceu numa sexta-feira, às três da manhã, na roça em Santo Antônio, distrito de Itacaré. “Foi meu pai quem contou tudo, direitinho”, diz ele, orgulhoso. O apelido Totonho veio dos irmãos — ele é o caçula.
Quando perguntamos quando veio morar no Porto de Trás, ele dispara: “Nunca! Não gosto daqui, não.” Conta que, depois que se casou, “venho assim e volto, venho e volto. Não quero ficar morando aqui, não.”
E deixa claro: não foi ele quem veio, foi Dona Catuta quem o trouxe. Ainda hoje, vai toda segunda-feira para a roça com a esposa e só volta na sexta.
Foi na igreja que conheceu Dona Catuta. Ficava olhando para ela, achando-a bonitinha, desejando em silêncio: “Tomara que dê certo.” Depois precisou ir para Salvador, mas nem ele nem ela se esqueceram um do outro. Quando voltou para Itacaré, pediu a mão dela. “Aí chegou no fim, tudo deu certo. Casei com ela com 26 anos, ela tinha 19. Graças a Deus, graças a Deus!”
Quando falamos da beleza de Dona Catuta, ele se derrete: “É... Ave Maria, ela é a segunda mulher da minha vida!” E quem é a primeira? “Minha mãe!”
Filho de Maria Rita da Silva e Antônio Joaquim da Cruz, Seu Totonho carrega com emoção a história da família. O pai veio da África, “nasceu pros lados de lá” e chegou em terras daqui subindo o rio, fugindo da seca de um lugar chamado Toco Preto. Arrumou trabalho com o coronel Bonfim. A mãe veio de Sergipe, também fugindo da seca e da fome. A família dela voltou para Sergipe, mas ela ficou. “Ela se acabou aqui”, conta ele, com tristeza. Quando ela morreu, ele tinha apenas cinco anos. Foi criado pela irmã mais velha e não guarda lembranças da mãe, mas gostaria de ter.
Do pai, lembra que era muito mulherengo. Pela conta dele, o pai teve 18 mulheres e morou com todas. Teve filhos só com duas. “Mas ele não deixava maltratar a gente, se fizesse, mandava embora”, lembra. O pai morreu aos 93 anos, trabalhando na roça até o fim. Seu Totonho mostra, com orgulho, uma foto antiga do pai e conta que ele adorava Dona Catuta.
Nunca conheceu os avós e lamenta não ter notícias: “Naquele tempo era difícil. Hoje é fácil.”
Nunca foi à escola. “Que nada, era roça mesmo, só roça”, diz. Quem o ensinou a escrever o nome foi Dona Catuta: “Quebrei a cabeça e aprendi.”
Hoje, ele e a esposa seguem firmes na rotina: vão segunda-feira para a roça e voltam sexta. Planta coco, comida para vender e para comer. Trabalha sozinho.
Adora samba — “samba pesado mesmo, duro”. Conta que não perdia uma festa. “Toda vida gostei de sambar e dançar, não perdia nunca.” Depois do casamento, parou de ir para as festas: “A festa hoje é ela!”, diz, apontando para Dona Catuta.
Quando perguntamos o segredo de um casamento tão longo, ele ensina: “Tem um jeito: um escuta o que o outro tá falando, depois dá um tempo pra puxar aquela conversa devagarzinho, pra não ter briga. A gente não briga, discute, mas não vai dormir brigado nunca!”
Seu Totonho lembra de um Porto de Trás muito diferente: poucas casas, todas de barro. Orgulha-se de ser o homem mais antigo do quilombo em atividade.
Foi brincante do Bicho Caçador. Saía da roça, fantasiado, e lembra rindo de quando caiu dentro de uma valeta em dia de temporal, ficando atolado até conseguirem tirá-lo todo enlameado. Sempre foi o bicho — e se ressente das mudanças: “Hoje o bicho vence o caçador. Tem graça, mas não é aquela graça que tinha. O caçador era mais inteligente.” Antes, as roupas eram de folhas e o bicho era realmente assustador.
Também fala com saudade do Terno de Reis e do carnaval, que, para ele, durava três dias direto: “Saía no primeiro dia e só voltava no final.” Brincava muito! “Hoje não é mais aquele carnaval.”
Quando convidamos para o retrato, ele hesitou: “Se você quer, vamos... mas a feiúra da pessoa queima muito a máquina”, diz, sorrindo com malícia.






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