Dona Daite - Adaite Honorata da Rocha
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 21/01/1936)
Quando chegamos, Dona Daíte estava na rua, jogando bola com o bisneto. O sorriso largo e o olhar vivo são retratos da força e da alegria com que atravessa a vida.
Irmã de Seu Nengo, Dona Preta e Dona Catuta — também guardiões da memória quilombola de Itacaré — Dona Daíte nasceu em 1936, em Itacaré mesmo. Teve doze filhos, perdeu dois, e hoje são dez espalhados pela cidade. “Nem sei quantos netos são... São muitos. E bisnetos e tataranetos também, mas não sei dizer o número, não.”
Todos nasceram em casa, como era costume, com exceção de dois que vieram ao mundo no hospital.
Morou em vários cantos da cidade: no Santo Amaro, no Aderno — “invadiram tudo lá, aí viemos pro Porto de Trás” — e também em Buerarema, “terra da farinha boa!”, lembra com graça.
Ela é filha de Anita Honorata da Rocha, descendente de indígenas, e de Porfírio Honorata da Rocha, com quem a mãe viveu muitos anos, formando uma grande família. Hoje restam apenas quatro irmãos vivos.
Casou-se com Luís Gonzaga dos Santos, também de Itacaré. Ele partiu há muitos anos, e desde então Dona Daíte não quis mais casamento. “Namorei um pouquinho depois, mas agora chega de aborrecimento. No tempo da modernagem, eu tive um punhado de namorados, mas agora não quero mais.”
Estudo não teve muito. “Estudei pouco tempo, porque o tempo não deixou. Ao invés de ir pra escola, eu ficava brincando na rua com o povo.”
Mas a vida ensinou muito: foi marisqueira, pescadora, trabalhadora das águas. Pescava siri, caranguejo, aratu, catava camarão e lagosta... para comer, e o que sobrava, vendia na feira. “Agora não posso mais. Tem anos que não vou pescar. Sinto saudade, porque gostava de encontrar as amigas.” Ela resume os seus dias, rindo: “Agora só sentar, comer, deitar e dormir.”
Sempre foi católica, devota de São Miguel Arcanjo. Mas também carrega seu orixá de cabeça: Oxalá. Frequentava o terreiro de Nanã, quando Mãe Júlia “batia candomblé” no Porto de Trás.
As festas de São João lhe trazem lembranças queridas. “Já bebi muito licor, mas agora não desce mais, não.” Dançava e cantava o Samba Duro com o corpo solto, leve: “Era como uma piaba”, lembra com graça e uma pontinha de saudade. Hoje, o joelho cansado já não permite o samba, mas a memória dança no lugar do corpo.
Apesar de dizer que não gosta de falar da vida nem de ser fotografada, quando chega a hora do retrato, Dona Daíte se entrega: faz pose, ajeita o sorriso e, no final, sai cheia de graça.
Dona Daíte é memória viva do Porto de Trás: uma força doce, dessas mulheres que carregam Itacaré dentro de si.






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