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Dona Celinha - Gicélia Cosme dos Santos

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 2 min de leitura
Retrato de Dona Celinha, mulher negra idosa. Ela está sorrindo. Veste roupa relacionada a povos de terreiro, com turbante branco na cabeça, vestido branco e um colar de contas branco e preto no pescoço.

(nascida em 06/04/1956; falecida em 10/10/2024)


Sem a possibilidade de ouvir diretamente sua voz, chegamos a Dona Celinha pela memória de sua filha, Leidinha, que nos entregou fragmentos de uma vida tecida entre o Porto de Trás e a Povoação.


Filha de Seu José Cosme dos Santos, estivador, e de Dona Elvira Rosa dos Santos – mulher de traços indígenas da família dos Pacas, hoje com 90 anos de vida –, Celinha nasceu no Quilombo Urbano do Porto de Trás. Vinda de uma família numerosa, com 16 irmãos, passou a infância entre a Povoação, onde os pais tinham roça, e o próprio Porto de Trás, onde se firmavam as raízes da família.


Na Povoação, iniciou seus estudos até a 3ª série. Mais tarde, já em Itacaré, deu continuidade à formação, concluiu o magistério e tornou-se professora leiga em escolas da zona rural. Exigente e dedicada, também foi a primeira mestra dos filhos em casa, insistindo, sobretudo, na matemática.


Na juventude, uniu sua vida à de Antônio Nascimento, com quem teve cinco filhos. O casal morava e trabalhava na Povoação, na fábrica de tijolos da família do marido. Produziam e transportavam os tijolos em canoas até Itacaré – muitas vezes era Celinha quem remava, grávida e coberta de barro, sempre acompanhada dos filhos pequenos.


À medida que os filhos cresciam e a escola da Povoação chegava apenas até a 3ª série, Celinha, pensando no futuro deles, decidiu vender parte das terras para comprar uma casa no Porto de Trás, garantindo a continuidade dos estudos das crianças. Hoje, Leidinha sua filha é bacharel em Administração.


Ao longo da vida, Celinha trabalhou em muitos ofícios: foi professora leiga, lavadeira do hospital, agricultora, pescadora, marisqueira. Se aposentou como marisqueira e a imagem que fica é de uma mulher incansável, capaz de tudo para sustentar a família com dignidade.


Mulher de Axé, filha de santo de Dona Noca, aprendeu os segredos do tabuleiro. Quando, em 2020, o óleo tomou os manguezais e o caranguejo escasseou, encontrou no acarajé a saída: montava diariamente seu tabuleiro na porta de casa. Esse ofício, que garantiu sustento em tempos difíceis, tornou-se também um legado hoje seguido por sua filha Leidinha.


Mas Celinha foi além: esteve entre as fundadoras da Associação de Moradores, Pescadores e Marisqueiras do Porto de Trás e participou de caravanas a Brasília no movimento pelo reconhecimento e certificação dos quilombos de Itacaré. Mulher articulada, firme e “porreta”, como muitos a definiam, escreveu sua história na luta e na resistência.


Dona Celinha partiu cedo, mas deixou marcas profundas e inspiradoras para as mulheres que se reconhecem em sua trajetória. Sua memória permanece como referência de coragem e resistência em Itacaré.

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