Dona Catuta - Antônia Honorata da Rocha
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 13/07/1945)
O apelido foi o pai quem colocou. Contava que conheceu uma menina chamada Catuta e gostou tanto do nome que resolveu apelidar a filha assim, ainda bem pequena. Mas, curiosamente, ele mesmo nunca a chamou de Catuta.
Nascida no Porto de Trás, em Itacaré, onde sempre viveu, Dona Catuta carrega no rosto a suavidade de quem observa o tempo passar com serenidade. Filha de Anita Honorata da Rocha e Porfílio Francisco da Rocha, cresceu numa família grande: foram dez irmãos criados juntos, mas hoje restam apenas quatro.
Ela não chegou a conhecer os avós, mas imagina que eram daqui mesmo. Conta que ouviu dizer que a avó ou bisavó materna era índia, história que ficou guardada no canto da memória.
Estudou a cartilha, o primeiro ano e depois o segundo. “Depois não estudei mais nada”, diz, rindo. Ler, ela garante que ainda sabe: “Se alguém me xingar no papel, eu sei ler”, brinca, soltando a risada gostosa.
Ela resume assim como conheceu Seu Antônio, com quem é casada há 57 anos: “A gente cresceu namorando.” Quando perguntamos o segredo de um casamento tão longo, ela responde sem hesitar: “Seu Antônio sempre foi bom e companheiro. Se não fosse, eu já tinha largado.”
Ao querermos saber quantos filhos ela teve, responde logo: “Sete.” Mas logo emenda, corrigindo: “Mentira, tenho dez filhos. Fiz sete e adotei três, mas amo eles como se tivessem saído de dentro de mim.”
Hoje, os filhos estão espalhados por São Paulo, Salvador, Austrália e Itacaré. Todos casados, menos um, que ainda não tem filhos. E quantos netos? “Um feixe, um punhado e, por cima, mais um bocado”, resume ela, gargalhando. São muitos, ela não consegue contar. Bisnetos já são oito. “Tataraneto? Não tem ainda, não. Custei pra ter bisneto, imagine tataraneto!”, comenta com graça.
Dona Catuta acompanha o marido na roça no Santo Antônio, perto da Cachoeira do Cleandro. Toda segunda-feira eles vão e só voltam na sexta. Ela cuida da casinha e, quando precisa, ajuda o marido na lida. Mas já avisa: “Já trabalhei muito na roça, agora não vou mais tanto, não.” Ainda assim, diz que adora ficar por lá: "Só o som dos passarinhos e dos barcos passando no rio, leio minha Bíblia, é paz!”
Guarda lembranças vívidas do Porto de Trás na infância: ruas de lama até o pescoço, casas de barro. Conta que havia muito candomblé e pai de santo no bairro, mas confessa que nunca participou — “Eu tinha até medo!”, admite. Samba? Gosta de ver, mas nunca sambou.
Católica praticante, Dona Catuta participa da Pastoral da Oração com devoção. Recentemente, passou o São Pedro em Itaparica, sua terceira visita à ilha. Ficou encantada ao conhecer a Igreja do Santíssimo Sacramento: “Fiquei maravilhada de tão linda que é”, conta. Assistiu à missa de São Pedro por lá, um momento de grande emoção. Apesar de estar prestes a completar 80 anos, diz que não quer festa. Prefere viajar, ver lugares, sentir o mundo.
Dona Catuta é daquelas mulheres que guardam firme o silêncio dos segredos, mas espalham riso fácil quando a conversa é boa. Uma força discreta, cheia de doçura, que segue, como ela mesma, firme no Porto de Trás — terra onde nasceu, cresceu e aprendeu a ver a vida passar com calma.






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