Seu Mero - Almerindo Evangelista dos Santos
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascido em 29/10/1927)
“Meu apelido? É o peixe que vocês gostam!”, brinca Seu Mero, puxando risada, mesmo com a fala hoje mais comprometida. Ele sempre foi conhecido como Mero desde pequeno e carrega no olhar um brilho que só quem viveu quase um século de histórias consegue ter.
Nascido na Limeira, antigo distrito de Itacaré, Seu Mero veio para o Pinheiro há 60 anos, junto com a primeira esposa e os filhos, em busca de um novo pedaço de chão para plantar e viver.
Filho de Virgilio Evangelista dos Santos, o “Pai Véio”, e de Isaura Garcia da Silva, a “Mãe Véia”, Seu Mero se orgulha das raízes. O pai nasceu no norte da Bahia; a mãe, em Serra Limpa, também em Itacaré.
Lembra dos avós maternos, José Garcia e Generosa, também de Serra Limpa. Conta que a fazenda onde os avós nasceram era do Sr. Isaac Soares, uma família tradicional da cidade. O pai de Seu Mero trabalhou para o Sr. Isaac e, como recompensa, ganhou um pedaço de terra. Depois, vendeu e conseguiu comprar um chão no Pinheiro — onde a história da família se fortaleceu.
Eram dez irmãos. Hoje, ele é o único que ainda segue firme, caminhando com cuidado e apoiado no seu “porretinho”, como chama carinhosamente a bengala que o acompanha pelo sítio.
Estudou pouco, mas aprendeu a ler e a escrever com capricho — a filha, Dona Maura, faz questão de dizer que a letra dele é muito bonita.
Animado, Seu Mero teve três esposas ao longo da vida. “Dizem que eu era muito paquerador”, comenta, num riso maroto. Com Dona Judite, teve três filhos. Com Dona Durvalina, com quem vive hoje, teve seis filhos. “É tudo meu”, diz ele, reafirmando o pertencimento e o amor. Dona Durvalina, nascida no Catulé, tem 88 anos e, com a ajuda das filhas e da enteada, cuida dele com todo carinho.
Quando chegamos para ouvir sua história, fomos recebidos por filhos, netos e até bisnetos, todos animados e orgulhosos em prestigiar e celebrar as memórias vivas do patriarca.
Todos os filhos de Seu Mero nasceram no Pinheiro. Hoje, estão espalhados por Itacaré, Salvador e São Paulo. Netos? “É muito!” Quando começam a fazer as contas, chegam a mais de 30. Bisnetos? Uns 18. Tataranetos? Cinco.
Foi agricultor e tropeiro. Tinha 10 mulas de carga, mais a dele e a do ajudante, somando 12 animais. “Carregava fretes na coxa dos bichos: cacau, blocos de construção, tudo o que aparecesse.” Passava dias na lida, viajando por toda Itacaré, ajudando a construir a cidade, carregando sonhos e sustento.
Também ajudava o pai na roça, plantando cacau e banana. Com o esforço, conseguiu criar os filhos mesmo em meio a muitas dificuldades. “Passou aperto”, conta Dona Maura, “mas nunca faltou coragem”.
Além de tudo, Seu Mero sempre foi muito politizado. Na última campanha para eleição municipal, em 2024, recebeu o candidato à reeleição com uma lista cheia de demandas. “Não deixou passar nada”, lembra a família, rindo.
Hoje, prestes a completar 98 anos, Seu Mero caminha devagar pelo sítio, firme no chão e no tempo, segurando o porretinho. Guarda na memória lembranças da infância, das andanças, das colheitas e das festas de antigamente.
Seu Mero é testemunha viva de quase um século de resistência, trabalho e sabedoria. Um homem que faz da prosa uma lição. E, da presença, um legado vivo para toda a comunidade.






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