Dona Dalva - Dalva Ribeiro do Nascimento
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 08/05/1934)
Quando perguntamos sua data de nascimento, Dona Dalva sorriu e respondeu: “eu não me alembro”. No seu tempo, as famílias anotavam as datas em cadernetas, quando anotavam. Os registros vinham depois, às vezes muito depois. R o ano acabava se perdendo na memória. Mas a vida, ela lembra com riqueza de detalhes.
Nascida em Pau Brasil, veio para o Quilombo do Pinheiro aos 10 anos de idade, acompanhando a família. Faz 80 anos que aqui construiu sua história. Filha de Brasilina Ribeiro Bonfim, a querida Dona Basú, e de Pedro Marcelino do Nascimento, o Mestre Pedro, que partiu cedo.
Não frequentou a escola quando menina. Já adulta, mãe e avó, chegou a participar de algumas aulas no Pinheiro. Recorda mais das caminhadas em grupo até a escola — todos cantando — do que das letras em si. Era longe, cheio de lama quando chovia.
Conta que na época dos filhos, seguir os estudos era ainda mais difícil: saíam de casa às 4h da manhã para enfrentar pau de arara, balsas e estradas. Poucos conseguiam continuar, a maioria ficava para ajudar na roça.
Casou-se aos 14 anos com Manoel Brasilino do Nascimento. Tiveram 14 filhos, dos quais apenas 5 estão vivos. Alguns se foram ainda pequenos, vítimas do que chamavam de “doença de anjo”, a desnutrição. Dona Dalva fez de tudo para cuidar de cada um: caminhava horas atrás de ervas, preparava chás, banhos de mato, até os caldos fervidos de “bosta de cabra ou de boi” que aprendeu com os antigos. As fraldas de pano também eram lavadas nesse caldo e depois enxaguadas com patchuli, ficando limpas e cheirosas. Com esses saberes, salvou muitos filhos, ainda que a vida tenha lhe levado outros.
Orgulha-se de sempre ter cuidado bem da casa. Lembra, rindo, que os vizinhos diziam adorar beber água em sua casa, porque conseguiam se ver no fundo do copo de alumínio — sempre brilhando de tão bem cuidados.
Hoje, é mãe dedicada a cinco filhos. Gil, com deficiência intelectual, precisa da sua vigilância constante, mora com ela e continua seu trabalho na roça da família. Pedro, que se recupera de um AVC, e a nora, Madá, estão sempre ao seu lado, cuidando com amor. Outros filhos seguiram caminhos em Ipiaú e em São Paulo.
Quando perguntamos dos netos, ela não consegue contar. Já os bisnetos, Pedro nos conta que já tem 42, o que nos levou a acreditar que Dona Dalva tem mais do que 50 netos. No riso, ela reconhece: “São muitos; tataranetos já contei cinco”.
Mulher de roça, capinou, plantou, colheu. Fez farinha “de braço, de sovaco”, como dizem, no tempo em que não havia motor. Lamenta que hoje quase ninguém mais faça farinha nem no motor: “A da venda não é tão gostosa quanto a que a gente fazia.”
Recorda com saudade dos tempos de união no quilombo, quando os homens puxavam roda para os vizinhos e, a cada nascimento, tiros de espingarda anunciavam a chegada da criança. Assim, as amigas vinham de longe ajudar no parto, na comida, na roupa, no cuidado. Suspira e pergunta: “Qual é a união que tem hoje?”. O filho Pedro responde: “O povo enricou. Quando enrica, não liga pra mais ninguém, não.”
Das festas, lembra de São João e São Pedro, dos carurus e dos sambas que enchiam o Pinheiro de alegria.
Dona Dalva é guardiã de uma vida inteira de memórias. Mulher que atravessou a dor com força, que cuidou dos seus com dedicação e que segue firme, agradecendo a Deus todos os dias pelos filhos e pela família que construiu. Sua presença é raiz, história e resistência no Quilombo do Pinheiro.






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