Dona Dete - Odete Silva Nascimento
- resistenciaehistor
- 5 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 11/03/1945)
Dona Dete, como é carinhosamente conhecida no Quilombo do Pinheiro, chegou à comunidade ainda menina, aos 6 anos de idade, vinda de Barra do Rocha, em Ubatã, onde nasceu. Filha primogênita de Cândido Bento da Silva, mineiro, e Antônia Maria de Jesus, a saudosa Dona Toninha, foi criada ao lado de quatro irmãos, numa infância cercada de trabalho, mata e sabedoria popular.
Dona Dete nos recebeu com muito afeto e alegria. Saiu contando que, pouco tempo antes de completar 80 anos, não estava bem de saúde e foi pra Itacaré procurar por médicos. “Minha filha, lá peguei uma virose, infecção no pulmão, inflamação no nervo, 'intupição' nas veias... era tanta coisa que pensei: vou me embora. Quando eu pisar lá em minha terra, Deus vai me ajudar.”
E foi assim mesmo. Voltou pro Pinheiro e melhorou. E, no dia da festa dos seus 80 anos, ainda tocou pandeiro com a destreza e a alegria de sempre.
O pandeiro, aliás, é companheiro inseparável de Dona Dete desde a infância. Aprendeu a tocar com o tio Leoné, irmão do pai. O instrumento era feito com pele de preguiça — caça comum naquele tempo — e virou extensão das mãos dela, que o leva a encontros com amigos, momentos na igreja e celebrações da comunidade.
A escola não fazia parte da rotina quando era criança. Lá no Pinheiro, naquele tempo, não havia nenhuma por perto. Quando ficou “mais moça”, ainda tentou frequentar aulas, mas a distância, o mato e as ideias antigas dos mais velhos dificultavam o acesso das meninas. “Tinha muita ignorância, não deixavam a gente aprender a escrever, pra não mandar carta pro namorado”, conta com uma mistura de crítica e graça. Assim, foi para a roça desde cedo, acompanhando os pais e aprendendo o ofício da terra.
Dona Dete se orgulha de ter parido seus 11 filhos no próprio quilombo, com a ajuda da comadre e parteira Joana, conhecida como Bião, que apesar de “esporrenta” sempre soube cuidar muito bem das mulheres paridas com a temperada de parida, o escaldado do pirão que as mulheres tinham que tomar por 40 dias e as simpatias comuns naquele tempo, que ela seguia à risca, para hoje, com orgulho, exibir o “corpinho” de quem pariu muito.
Mas não só pariu: Dona Dete também “pegou” algumas crianças; aprendeu com a avó paterna, Dona Francisca, que era índia, parteira e mulher de presença marcante. Dona Dete conta que cortava o umbigo direitinho e enterrava, como manda a tradição, “pro rato não comer” — diziam que se o rato comesse, a criança “dava pra ladrão”. E se enterrasse perto de curral, a criança teria sorte. Crenças e saberes antigos!
A vida foi dura, mas nunca parada. Trabalhou a vida inteira na roça com o marido, Seu Lindolfo, com quem construiu tudo que a família tem. Viúva há 29 anos, ela segue cuidando da terra. Ainda hoje cultiva banana, cana, mandioca e flores. Usa o facão, capina, planta, colhe. E reclama que “agora tem que comprar farinha na venda”, já que as duas casas de farinha do Pinheiro acabaram — “o povo não teve cuidado”.
Pescadora de ocasião, conta das sucuubas da represa onde gostava de pescar, uma deles comeu o cachorro dela, lamenta. Nos conta também das onças e bichos que cruzava pelas matas, mas diz que nunca teve medo. “Hoje não posso correr, mas se ver uma onça saio de fininho.”
Antigamente ela andava por todo canto em uma moto, mas agora o povo diz que “velho não pode andar de moto não, porque os ossos são fracos e se cair esbagaça tudo”. Por isso, fica mais em casa.
Dona Dete tem histórias de estrada e de festa. Lembra com saudade dos carurus, das festas de São João do outro lado do rio, das serestas, sambas, rancheiras e das rezas pra Santa Bárbara e Bom Jesus da Lapa. “Hoje morreu tudo, o povo foi embora”, lamenta.
Curtiu muita festa, brincou muito, e agradece, hoje, estar viva com saúde, com seu cabelo “pretinho, sem tinta” e “esses pezinhos que já caminharam tanto”.
Além de tudo, é artesã: faz fuxico e flores de papel, que a filha Nice mostra com orgulho.
E segue tocando seu pandeiro, cultivando flores e espalhando alegria no quilombo — com os saberes antigos, com o corpo que dançou, pariu, trabalhou e ainda hoje se move com graça. Dona Dete é pura força e alegria, memória viva do Pinheiro.






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