top of page

Dona Valdevina - Valdevina Maria de Jesus Santos

  • resistenciaehistor
  • 5 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Dona Valdevina, mulher preta de 101 anos. Ela está sorridente e feliz, possui rugas no rosto. Usa um lenço branco cobrindo os cabelos e veste uma camiseta verde claro. Ela posa em frente a uma árvore.

(nascida em 20/07/1924)


Dizem que já passei dos cem... será?”, responde com um sorriso tímido. A verdade é que Dona Valdevina carrega no corpo miúdo e no olhar manso uma vida centenária de histórias, trabalho e raízes profundas.


Nasceu em Piabanha, na região do Laricó Grande, distrito de Maraú, filha de Maria Domingas de Jesus e de Tertuliano José dos Santos — a quem não chegou a conhecer. Ainda jovem, chegou ao Quilombo do Pinheiro, em Itacaré, onde já vive há 80 anos, já casada e mãe de filho.


Ao lado do marido, que era filho de portuguesa, desbravou o mato fechado que havia em volta de casa e fez roça. Plantavam de tudo: cacau, banana, mandioca... Produziam farinha na casa de farinha da comunidade — “Mas agora acabou, não tem mais casa de farinha aqui. Tem que comprar, e a comprada é ruim... mas fazer o quê?”, lamenta.


Também pescava no rio do Pinheiro. A traíra era a mais comum. Da terra e das águas saía o sustento dos filhos: cinco ao todo, sendo dois nascidos ainda em Piabanha e três já no Pinheiro. Hoje, vive com o filho Manoel — ou Nilton, como todos o conhecem — que segue o legado da lavoura, cuidando da roça da família.


Dona Valdevina nunca foi à escola. Onde ela nasceu, não havia. Mas se orgulha de ter incentivado os filhos nos estudos. “A escola era longe, seis quilômetros, e a gente ia correndo no meio do mato, brincando, passando pelos rastros das onças”, conta Nilton. A merenda era banana com coco de burí e caldo de cana moído ali mesmo, na mão. Chovesse ou fizesse sol, o trajeto era feito. “Todo mundo respeitava a professora. E todo mundo aprendia”, completa ela, com firmeza.


Desde pequena, trabalhou muito. Foi levada por um tio para plantar cacau depois que o pai faleceu. Das gerações anteriores, guarda fragmentos: a bisavó materna, que era índia e, como se dizia antigamente, foi “pegada a dente de cachorro”; a avó, Mariazinha, por parte de mãe, da região dos Tanques, no caminho para Salvador.


Hoje, a vida segue num ritmo mais tranquilo. Dona Valdevina ainda cozinha sua própria comida e garante que a casa está sempre em ordem — “Passo a vassoura, viu?”, diz, rindo. Os netos estão espalhados pelo mundo — inclusive dois na Itália — e alguns vêm visitá-la nas férias. Já são pelo menos quatro bisnetos, talvez mais.


Ao longo de um século de existência, Dona Valdevina construiu uma vida de resistência, trabalho e amor à terra. Em sua presença serena, mora a memória viva do Quilombo do Pinheiro.

Comentários


Mais Velhos Homenageados e Homenageadas

Aqui é possível conhecer todas as pessoas homenageadas pela exposição. Navegue e conheça todas essas histórias!

Banner com as logomarcas de apoio da Secretaria de Cultura de Itacaré e Apoio financeiro do governo da Bahia, da PNAB e do governo federal.
bottom of page