Seu Cassemiro - Cassemiro Elias dos Santos
- resistenciaehistor
- 4 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascido em 04/03/1956)
Seu Cassemiro nasceu em Ibirapitanga, mas com apenas um ano de vida já estava no Quilombo do Pinheiro, em Itacaré. Veio junto com os pais, Emiliana Antônia de Jesus e Izidorio Elias dos Santos, e os sete irmãos. Era o caçula — posição que, segundo contam, ele sempre soube aproveitar com certa arteirice.
Foi para a escola no Pinheiro, “escola de roça mesmo”, mas conta que não aprendeu muito. “Há 59 anos era difícil demais. Tinha ano que tinha professor, tinha ano que não tinha”, relembra. Aprendeu a assinar o nome e a olhar a placa do ônibus — e assim foi se virando no mundo.
Começou a trabalhar cedo, “assim que a baeta saiu”. No início, os trabalhos eram todos brutos: serrar madeira, carregar peso, cultivar mandioca, batata, tudo o que fosse preciso para alimentar a família e, quando dava, vender na feira. Hoje, aposentado, divide-se entre uma casinha na sede de Itacaré e a roça no João Rodrigues.
Casou-se a primeira vez aos 18 anos, mas não foi a primeira namorada — ele mesmo confessa, entre risos, que teve muitas. Casou-se três vezes no total. E foi justamente no segundo casamento que se mudou para o Quilombo do João Rodrigues. Ali, criou raízes profundas, construiu família e passou a viver de forma mais ativa na comunidade que hoje representa com tanto orgulho.
Com muito esforço, criou sete filhos: um homem e seis mulheres. Hoje, parte vive em Itacaré, parte em Maraú. Fala com orgulho que todos estudaram: “São mais sabidos que eu”, diz, sorrindo. Uma das filhas se formou professora, vitória que ele celebra como uma grande dádiva. A caçula tem 33 anos, o mais velho 43. Todos casados, já deram a ele quatro netos.
Atualmente, vive com Dona Ana, companheira há oito anos.
Não conheceu os avós e pouco sabe sobre eles. Lamenta não ter conseguido ouvir e guardar mais histórias: “Até que eu pensava em saber de onde eles eram, a nação de onde vieram”, conta, com um suspiro. Ainda assim, acredita que talvez consiga descobrir, agora com as associações e conselhos quilombolas da região. É um desejo que permanece vivo.
Apaixonado por samba duro e cantoria, Seu Cassemiro não perdia uma festa. Sambava, batia pandeiro, se divertia como poucos. “Aparecia uma festa, eu tava lá!”, conta, com brilho no olhar. Lembra com saudade das Festas Juninas no João Rodrigues. “Era um prazer, uma alegria, todo mundo se juntava.” Hoje, conta que já não existem mais festas na comunidade: “Agora o povo todo vem pra cidade.”
Foi o fundador da Associação de Moradores do Quilombo do João Rodrigues, que completa 24 anos de história. “A luta é muita”, resume. Lutaram muito pela certificação da comunidade como remanescente quilombola. E depois disso percebeu que as pessoas passaram a ter mais consciência sobre o que é ser quilombola e o que significa viver em um território quilombola.
Ainda assim, reconhece que muitos resistem a se autodeclarar quilombolas. Para ele, isso se deve ao desconhecimento profundo da história. Mas segue firme: continua atuante na associação, participa das reuniões e conversa com a comunidade para manter viva a organização e a consciência coletiva.
Seu Cassemiro é aquele homem que dança a vida, luta com o coração e segue costurando o presente com a memória do passado. Um guardião atento e politizado, que faz do quilombo não apenas morada, mas bandeira.






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