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Pascoal - José Afonso de Jesus Filho

  • resistenciaehistor
  • 4 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Pascoal, homem preto de 78 anos. Ele usa um volumoso bigode grisalho e olha para a câmera com um ar sereno. Usa um boné azul claro e uma camisa da mesma cor.

(nascido em 22/03/1947 — ou quase)


Dizem que eu tenho 78, mas acho que não. Manoel Cupim tirou meu documento errado, mas ficou por isso mesmo...


É com esse jeitinho simples e desconfiado que Pascoal começa a contar sua história, entre uma risada tímida e um silêncio que guarda mais do que revela.


Nasceu do outro lado do Rio de Contas, na Fazenda Felizarda, onde também nasceram seus cinco irmãos. Era o mais novo. Os pais — Pascoal, de quem herdou o apelido, e Dona Matilde Aninha de Jesus — morreram quando ele ainda era muito pequeno. “Nem lembro deles”, diz.


Foi criado pelos irmãos mais velhos, na lida da roça e da vida. A vida inteira trabalhou plantando. “Plantando, plantando...” — responde, como quem sabe que não precisa florear. Cacau, mandioca, coco... o que planta é para comer, mas também compartilha com os amigos que precisam.


Há mais de 30 anos trabalha na roça de um vizinho. “Ele não quer largar de mim, diz que não acha outro igual, não.


Ainda hoje vai todo sábado de barco pra Itacaré, fazer feira. Gostava das serestas, das festas, mas já faz tempo que não vai. A tristeza ainda é recente: perdeu sua esposa, Rosenilda Marques de Jesus, pouco mais de um ano atrás. “Não sinto vontade de ir ainda...”, diz em voz baixa, os olhos marejados.


Tiveram quatro filhos e, ao todo, Pascoal tem uns 15 netos. Ainda não vieram os bisnetos. Criou também uma filha de coração, que chegou ainda bebê, com 6 meses. Ela faleceu aos trinta e poucos anos, deixando cinco netos para ele amar e cuidar.


Durante a reunião da associação do quilombo, Pascoal chegou mais quieto. Os amigos logo rodearam, com afeto visível. Estava meio adoentado e ganhou um “remedinho” de Seu Manoel Cupim, que tomou num gole só. Quando perguntamos se era a famosa “cachacinha do Cupim”, todo mundo caiu na risada. “Pascoal não aguenta mais não... Lá ele!”, brincaram.


As histórias de cobra? Dizem que ele tem um monte para contar. Mas, rindo com o canto da boca, desconversa: “As cobras moram no mato...” — e deixa no ar a resenha que só os amigos conhecem.


Foi à escola já mais velho, no Mobral, à noite. “Era besta. Agora não sou mais. Saí de besta, fiquei mais sabido um pouco.” Tabaréu de roça, como ele mesmo diz, mas com o saber do mundo na palma da mão.


Diz que os pais foram escravizados. Quem sabia mesmo era o irmão mais velho. “Ele é que sabia contar as coisas.


Pascoal é desses homens discretos, que se fazem notar pela presença serena e o respeito que carrega. Fala pouco, mas todo mundo escuta. E cuida da memória do João Rodrigues com a firmeza de quem ainda planta — e reparte.

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