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Das Neves - Maria das Neves de Jesus Freire

  • resistenciaehistor
  • 4 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Das Neves, mulher negra de 75 anos. Ela está sorrindo e usa cabelos pretos crespos na altura do ombro. Está vestindo uma bluza azul cara e uma correntinha fina de metal no pescoço. Fundo é uma área aberta desfocada.

(nascida em 08/10/1949)


Das Neves, como é conhecida por todos, nasceu no Quilombo João Rodrigues. Filha de Antônia Ana Bonfim, do Quilombo Oitizeiro, e de Domingos Freire de Jesus, da região de Taboquinhas, cresceu cercada pela natureza, por uma família numerosa e por muita sabedoria popular. Teve seis irmãos, entre eles uma adotiva.


Das lembranças da infância, destaca-se a avó Francilina, cabocla de cabelo liso, "pega a dente de cachorro", como se dizia no costume antigo. Dos outros avós, não chegou a conhecer.


Desde pequena, aprendeu com os pais a valorizar o alimento tirado da terra, do mato e das águas. Do pai, herdou a lembrança das caças preparadas com mundéu — armadilha feita com galhos — de onde vinham tatu, paca, cotia. Da mãe, trouxe o dom da cozinha, ofício que exerceu em cidades como Ipiaú e Salvador.


Mais tarde, prestou concurso público e atuou como agente de saúde, profissão na qual se aposentou. Mas a pesca segue sendo seu prazer e sustento: siri, carapicú, robalo, carapeba... “o que cair na rede é peixe!”, brinca ela, com bom humor.


Concluiu o ensino médio após vir morar ainda criança com parentes no Marimbondo, na sede de Itacaré — um privilégio para poucos naquela época. “A escola do João Rodrigues ia só até a 4ª série, e os irmãos mais velhos ficavam no quilombo, trabalhando na roça, para que os mais novos pudessem estudar.


A infância e adolescência no Marimbondo foram marcadas por histórias, cantigas e brincadeiras. Das Neves guarda com carinho a memória de Dona Percelina, mestra de cultura que encantava a garotada com jogos, músicas e o famoso “pão do velho”, feito nas segundas-feiras ao som da viola. Também lembra com afeto de Dona Edith, mãe de Dona Nieta, que se sentava à porta no final da tarde para contar histórias às crianças.


Quando Dona Mãezinha, filha de Percelina, decidiu fazer renascer a Volta da Jiboia, Das Neves — já mãe de filho — não pensou duas vezes. Juntou-se ao grupo e hoje ajuda a manter viva essa importante manifestação cultural afrodescendente.


A fé sempre esteve presente. A família é católica, e Das Neves, ainda menina, participava das festas de São Pedro, das trezenas e das coroações de rainhas e princesas na antiga capela do quilombo. Essas celebrações deixaram de acontecer, mas a memória segue viva no samba de roda que acontece até hoje na casa de seu irmão mais velho, Mané Cupim, sempre no dia do Santo. Ali, entre a batida do pandeiro e as palmas ritmadas, o passado encontra abrigo e segue pulsando.


Das Neves teve um filho, Davidlan, e dois netos. Nunca se casou oficialmente, mas construiu sua história com autonomia, afeto e coragem. É dessas mulheres que vivem em silêncio o que o tempo não consegue apagar: os laços com a terra, com a cultura e com a história do seu povo.

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