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Dona Lió - Leonice Maria de Jesus

  • resistenciaehistor
  • 4 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 9 de nov. de 2025

Retrato de Dona Lió, mulher negra idosa, de pele castanha. Ela está sentada, apoiando o queixo sobre a mão direita fechada, em gesto delicado. Tem cabelos presos em um coque, de cor preta. O olhar é sereno e voltado para a câmera, com leve sorriso. Veste uma blusa verde estampada com flores em rosa e amarelo. Ao fundo, uma parede verde e parte de uma cadeira escura, onde ela está sentada.

(nascida em 01/08/1944)


Eu moro sozinha mais Deus.” É assim que Dona Lió resume, com simplicidade e fé, a força com que atravessou sua história.

Nascida em Tijuipe Grande, “em cima da mata”, como ela diz, chegou ao Fojo ainda jovem, já grávida, e ali criou sua família inteira. Fez quinze filhos. Perdeu três. Criou doze. Hoje, são dez filhos vivos e uma neta órfã — que a mãe cria em São Paulo.


Os filhos, foi tudo eu que criei. As roupas deles? Nunca ninguém deu, eu mesma comprava!” — diz com aquele sorriso de quem sabe da luta. Nunca foi casada, mas com bom humor confessa: “Arranjei um bocado de companheiro... mas não dava certo não. Só aparecia gente querendo sugar, nunca ajudaram com nada.


Criou os filhos na força de Deus e no trabalho. Pescava camarão, moréia, traíra; tratava peixe e vendia na feira de Itacaré. Quando a perna adoeceu, precisou parar. Também trabalhou na roça dos outros. “Se botou por dentro do Ribeirão, das matas, da tiririca, das casas dos outros.” Tudo pra dar estudo e sustento pros filhos.


Nunca foi à escola. Aprendeu a ler com jornal, perguntando às tias, aos primos e a uma amiga professora. “Aprendi a somar, dividir, multiplicar... mas esqueci tudo.” Mesmo assim, o orgulho de ter aprendido com as próprias mãos continua aceso.


Foi também mãe de leite de muitas crianças da comunidade. Explica com sabedoria simples: “Quando o leite da mãe nasce amarelo, a gente dá nosso leite pro bebê.

Com orgulho, conta que é mãe de “imbigo” de Jilson, nosso guia no quilombo do Fojo: “O umbigo dele ficou bonito”, ele mesmo confirma, sorrindo.


Dona Lió é guardiã de muitas memórias do Fojo. Recorda a Festa de Santo Antônio, organizada pelo velho Alfredo: “Festejavam o mês todo. Depois que ele morreu, acabou tudo. Agora só tem os crentes e esse negócio de paredão — mas isso não é festa não.


Lembra também que o povo saía cantando Reis de porta em porta, das fogueiras de São João, do Bicho Caçador: “Vestiam umas roupas doidas e saíam de casa em casa... não lembro direito.


Quando chegou ao Fojo, ainda não havia igreja evangélica. Frequentou poucas vezes o candomblé com o companheiro da época, Pedro, no barracão de Dona Ana, que ficava na casa do “Velho”. Ouviu falar muito de Dona Maria Bonita, mãe de Bié e de seu caramanchão, “ela era candomblezeira e fazia muita festa.” Mas nunca foi de nenhuma religião. “Minha religião é a que Deus me deixou.


Ela conta que as viagens antigamente eram difíceis: “Pra Itacaré era só de canoa, na perna era muito longe. Pra Taboquinhas, ia de pé ou pegava carona de canoa.” A bisavó, como tantas outras da região, foi “pegada a dente de cachorro — tirada da mata ainda criança para ser criada”, como ela explica.


Do avô Marcos, tem poucas lembranças, mas recorda com carinho dos momentos em que a tia Valentina contava histórias para distrair as crianças — embora hoje essas histórias tenham se apagado da memória. Na infância, adorava “cantar roda”; na juventude, era fã de seresta. “Me criei nas festas. O pai tocava cavaquinho e me levava em tudo que era festa.


Dona Lió é resistência pura: sabedoria de quem enfrentou o mundo com a força das próprias mãos, a fé em Deus e o amor imenso pelos filhos, que ela nos apresentou por meio dos retratos que tem em sua parede.

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