Ceiça - Maria da Conceição dos Santos
- resistenciaehistor
- 4 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 27/09/1961)
"Nasci numa sexta-feira, 27 de setembro de 1961. Libriana,... mês tá assim, mês tá lá...". É assim que Ceiça gosta de se apresentar, com um sorriso largo e o jeito doce de quem traz as histórias na ponta da língua.
Nasceu da barriga, como ela diz com o nome já escolhido. “Minha mãe fez promessa pra Nossa Senhora da Conceição. Se fosse homem, era José. Como fui mulher, já pulei na terra com o nome pronto: Maria da Conceição.” E assim ficou, Ceiça, como todos a chamam no Fojo.
Filha de Elisabete, de Serra de Água, e Raimundo, do Fojo (Beira Rio), cresceu em meio aos irmãos — foram doze no total — e desde cedo aprendeu o peso e o valor da roça. "Comecei a trabalhar pros outros com 9 anos. Meu pai pegava umas empreitadas de plantar mandioca, colher cacau, e a gente ia junto. Eu carregava mandioca no animal, botava na casa de farinha, era menina ainda."
Mas não faltavam as alegrias da infância: as festas juninas, o forró, o arroz doce, a canjica e o porco assado na fogueira. "Ah, que tempo bom, ..."
A escola também fez parte da sua história, mas por pouco tempo. “Era boa aluna, porque sempre fui esperta, mas não aprendi nada. Quando o professor pediu o livro e meu pai disse que não ia comprar, eu me injuriei, perdi a vontade. Ele falou: ‘Teu livro vai ser cabo de enxada.’ Me deu raiva.” Mesmo assim, aprendeu com a vida: “Tem coisa que a gente não aprende na escola. Aprende andando pelo mundo, convivendo com as pessoas.”
Ainda menina, foi levada por uma madrinha para o Rio de Janeiro. Morou lá dois anos e meio. “Se eu fosse o que sou hoje, naquele tempo... Eu era só uma mulher pretinha, neguinha, cabelo agarrado no casco, doidinha...”
Atualmente Ceiça frequenta o EJA, Educação para Jovens e Adultos na Escola Municipal do Fojo. Já lê, escreve e muito orgulhosa nos apresenta seus cadernos e cartilhas.
Depois de morar em Ubatã, Lagoa Encantada, Sambaituba e Ilhéus, foi no Fojo em Itacaré, que fixou morada. “Aqui eu tô perto dos mangues, pego um caranguejo, cozinho, como. Jogo uns anzóis, pego uma piaba, como. Os peixes que eu como, eu mesma pesco.”
Mas é mesmo na roça que ela encontra sossego. “Tenho um pedacinho de terra lá dentro... planto mandioca, cacau, coco, cupuaçu, tangerina, abacate, abiu, limão... Tem de tudo. Só não rende porque não dá pra comprar adubo, nem limpar tudo como antes.”
Mãe de sete filhos (três homens e quatro mulheres), e avó de nove netos, espalhados entre Itacaré e Portugal, Ceiça carrega uma saudade especial da filha e netas que estão longe. “Minha filha Merivalda e suas filhas estão lá em Portugal. Conheci a Emily quando mal andava, a menor eu só conheço por foto. Mas ir lá não dá não. Deus não deixa eu andar de avião. Eu num tenho coragem, fia...” Quando insistimos, ela sorri e desconversa: “Deus não deixa.”
Das memórias antigas, guarda também as histórias de seus ancestrais. “A mãe da minha avó foi pega a dente de cachorro, por aqui mesmo, lá na beira do rio.” E conta que a região do Fojo era antigamente aldeia indígena: “Tinha até um lugar que os índios soltavam as canoas deles pra descer pelo Rio de Contas... mas isso é coisa de antes de eu nascer, eu não alcancei não, é o povo quem conta.”
Foi assim também que ouviu a explicação do nome Fojo: “É por causa das armadilhas de bicho — os buracos onde caíam os animais.”
E ainda se recorda, com os olhos umedecidos, do engenho de Taboquinhas, onde via o passado da escravidão com os próprios olhos: “O muro de amarrar os negros era grosso, com pau bravo e corrente. Eu conheci aquele lugar.”
Ceiça é assim: raiz firme, memória viva, doce e forte como as mulheres que carregam o peso e a beleza da ancestralidade quilombola.






Comentários