Bojoró - João Gomes da Cruz
- resistenciaehistor
- 3 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascido em 24/11/1950)
“Bojoró” é o nome que o acompanha desde menino — “botaram esse apelido porque eu era pequeno, gordinho e fortezinho... mas até hoje não sei o que é Bojoró”, conta ele, rindo do mistério que carrega no nome.
Filho único de Judite Maria da Conceição e José Gomes de Jesus, nasceu no Fojo, na fazenda Cajazeiras, onde vive até hoje.
A mãe, que chegou “mãe de filho” de Salvador, se apaixonou por Seu José, e os dois criaram juntos os quatro filhos que ela já tinha, quando se casaram. Por parte de pai, tem ainda três irmãos, que ele conta que foram de fora do casamento.
A vida de Bojoró foi toda no Fojo. Só saía para trabalhar. Servidor do Estado, se aposentou como mecânico do DERBA, onde atuava consertando tratores de esteira por toda a região, ofício que aprendeu observando os mais velhos e mexendo nas máquinas.
Nunca abandonou a roça — planta cacau, banana, mandioca, inhame, batata, o que for necessário para alimentar a família e, com sorte, vender um pouco na feira de Itacaré e Taboquinhas. “Não dá muito dinheiro, mas ajuda a sobreviver”, diz.
Além da roça, também foi pescador no Rio de Contas. Especialista em tapagem, uma técnica para apanhar os peixes: fazia um cerco no rio e montava armadilhas com jiqui —
buracos de palha colocados em água corrente — e conta com brilho nos olhos as vezes em que pegava muitos peixes assim.
Tapagem, aliás, era também nome do mutirão que faziam quando alguém ia levantar uma casa de taipa, a comunidade se juntava: trabalho pesado, pegavam logo cedo e terminavam em torno das 17h, e muita festa depois. Era porco na brasa, sarapatel no tacho, cachaça correndo solta — “era cachaça, mulher!”, diz ele com um sorriso maroto — e samba a noite toda.
No final da tapagem, tinha também o “Divino”: as crianças modelavam bolos de barro, colocavam uma vela em cima, e saíam pelas ruas cantando. Seu Bojoró ainda lembra um trechinho: “Ei Divino, Divino Senhor, ei Divino, Divino meu Deus...”
Aprendeu a fazer casas de taipa desde pequeno, trançando esteio, amarrando e tapando com barro. “Se precisar, ainda faço”, garante. Recorda com carinho das festas de São João organizadas pelo avô Alfredo: o mês inteiro era festa. De dia, roça, de noite, reza, “chamavam por Deus”, como diz ele. E depois muito samba! Ele mesmo não sambava nem tocava nada — só olhava.
O primeiro casamento foi com Dona Conceição, com quem teve nove filhos. Depois vieram mais alguns casamentos — ele mesmo perdeu a conta. “Castrei com 40 anos. Fechei a fábrica e abri um parque de diversão”, diz, rindo. Há 20 anos vive com Dona Joana, sua companheira de hoje — ambas, Conceição e Joana, também foram homenageadas pela primeira edição do projeto, em 2023.
Ele conta que a roça era a escola dele. Seu Bojoró frequentou pouco a escola, que ficava longe, tinham que caminhar muito por dentro do mato, mas ainda lembra com carinho da professora, Dona Maria Júlia, por seu cuidado com os alunos.
Começou a trabalhar com 11 anos, ajudando o pai na roça. Colhia cacau, levava mandioca nas costas — não tinham animal — até a casa de farinha, fazia de tudo. Estudava de manhã e trabalhava à tarde.
Fala com orgulho dos filhos: “Eles aprenderam mais que eu. São mais sabidos, mas não em todas as coisas.” Quando perguntamos dos netos, que são muitos – “pra lá de 20” -, diz que as crianças hoje são mais inteligentes . Quando provocamos sobre a inteligência de quem planta, ele pondera: “É... em parte quem trabalha na roça é inteligente... mas o problema todo é a sabedoria de leitura, porque quem trabalha na roça, pra aprender, tem que estudar de noite.”
Cristão devoto, frequenta a igreja às quartas, sábados e domingos — que fica pertinho da casa dele, na pista. Bojoró é daqueles que guardam no corpo forte o ofício da roça, na fala mansa o saber da experiência e no riso a graça leve de quem viveu bem. Ainda hoje planta, vende na feira, relembra cantigas antigas e se diverte contando histórias. Um saber que vem da terra, das águas e da memória.






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