Dona Conceição - Maria da Conceição Santos
- resistenciaehistor
- 4 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 9 de nov. de 2025

(nascida em 25/09/1952)
“Nasci junto com a primavera. Foi em Taboquinhas, numa fazendinha.” Dona Conceição gosta do tempo frio. "Porque no calor, com casa de eternit, esquenta demais... aí empata de dormir."
Filha de Roberto Martins dos Santos e Petrolina Amaro de Souza, cresceu vendo o trabalho da roça e ouvindo as histórias de quem andava pelo mundo. O pai criava animais e saía pelas estradas vendendo panacum. "Ele amarrava o lote de bicho e ia-se embora." Moreno claro, forte, de boa altura, como ela se recorda.
A mãe, além de plantar e fazer farinha, era parteira famosa. "Fez muito mais de duzentos partos. Pegou os netos, os filhos... Tinha gente de fora que vinha só pra ela fazer o parto." Dona Conceição a acompanhava, mas confessa: "Pra eu mesma fazer o parto, sem ela, não. Isso eu não tinha coragem, não."
Casaram-se em Serra Grande, mas, com o tempo, o que tinham de roça foi-se acabando. "Pai dava fim a tudo. No fim, não ficou com nada."
Dona Conceição também formou uma grande família: teve doze filhos, dez vivos — "dois Deus levou ainda na barriga". Hoje, são quatro mulheres e seis homens, espalhados entre São Paulo e Itacaré.
Com o atual marido, João Alves dos Reis, teve um dos filhos. “João faz tudo dentro de casa. Se eu tô doente, faz comida, leva café, cuida de mim. Agora tá com problema nas costas, não pode mais pegar peso... A gente é um pelo outro.”
Vieram também os netos — quase vinte — e já tem sete bisnetos entre Itabuna e São Paulo. “Tão tudo pequeno ainda... mas eu tô aqui, com fé em Deus, esperando pelos tataranetos.”
A vida foi de roça: plantar cacau, arrancar mandioca, fazer farinha. Morou em Itacaré, Taboquinhas e, hoje, vive no Fojo.
As lembranças familiares têm raízes profundas. A mãe da avó era indígena. "Foi pegada a dente de cachorro. Viram a menininha, botaram os cachorros e trouxeram ela do mato. Criaram. Era cabocla." Dona Conceição conta com detalhes os traços herdados: "A avó era clarinha, cabelo comprido, liso. A mãe também tinha o cabelão liso, batia lá embaixo. O avô já era bem moreno, xoxinho. Parecia índio também."
Quando os avós morreram, ela já tinha filhos. “A mãe saiu com o pai de Serra Grande, carregou os filhos tudo. A gente ficou longe dos avós.”
Até hoje, cozinha no fogão de lenha. “Feijão gasta muito gás. E o gás tá caro, viu? Leva de três a quatro meses pra eu comprar o gás. O povo até fica besta.”
Já foi católica, depois virou crente, se afastou, mas pensa em voltar. "A lei dos crentes me espera de novo."
Os pais eram do candomblé e levavam as crianças, mas ela mesma nunca frequentou.
Dançar, no entanto, sempre dançou: “Ave Maria... aqui mesmo no Fojo tinha festa de samba duro, eu caía dentro. Todo mundo dançava. Agora não dança mais não, virou tudo crente.”
As festas de antigamente ainda vivem na memória: terno de reis, fogueira de São João, porco assado, galinha. “Era uma festança danada, tinha o velho Alfredo que fazia tudo. Depois que ele morreu, acabou. Os crentes tomaram conta, acabou as festas. Senti saudade, mas a gente acostuma. Botava os meninos pra dormir e ia pra festa.”
Dona Conceição é dessas mulheres de raiz profunda, com a força mansa de quem carrega as memórias do quilombo no olhar e na fala.






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